O desejo corre
Todo corpo sofre
O desgosto late
O relógio que não bate
O relógio bate
Todo corpo late
O desejo se aflora
O gosto se apura
O relógio corre
Todo corpo sofre
O desejo, a ternura
Todo gosto morre
Todo corpo bate
O desejo sofre
O relógio morre
É o gosto que se escorre...
(Raquel Mello)
quarta-feira, 30 de maio de 2007
sexta-feira, 25 de maio de 2007
O Paradoxo do Nosso Tempo
Nós bebemos demais, fumamos demais, gastamos sem critérios, dirigimos rápido demais. Ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos muito cansados, lemos muito pouco, assistimos televisão demais e oramos raramente.
Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores.Nós falamos demais, amamos raramente, odiamos freqüentemente. Aprendemos a sobreviver, mas não a viver.
Adicionamos anos a nossa vida e não vida aos nossos anos. Fomos e voltamos à Lua, mas temos dificuldade em cruzar a rua e encontrar um novo vizinho. Conquistamos o espaço, mas não o nosso próprio.
Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores.Limpamos o ar, mas poluímos a alma.
Dominamos o átomo, mas não nosso preconceito.
Escrevemos mais, mas aprendemos menos.
Planejamos mais, mas realizamos menos. Aprendemos a nos apressar e não a esperar.
Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos.
Estamos na era do "fast-food" e da digestão lenta; do homem grande de caráter pequeno; de lucros acentuados e relações vazias.
Esta é a era de dois empregos, vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados. Esta é a era das viagens rápidas, fraldas e moral descartáveis, das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas "mágicas".
Um momento de muita coisa na vitrine e muito pouco na dispensa.
Uma era que leva esta carta a você e uma era que te permite dividir esta reflexão ou, simplesmente, clicar "delete". Lembre-se de passar tempo com as pessoas que você ama, pois elas não estarão por aqui para sempre. Por isto, valorize o que você tem e as pessoas que estão ao seu lado.
George Carlin
Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores.Nós falamos demais, amamos raramente, odiamos freqüentemente. Aprendemos a sobreviver, mas não a viver.
Adicionamos anos a nossa vida e não vida aos nossos anos. Fomos e voltamos à Lua, mas temos dificuldade em cruzar a rua e encontrar um novo vizinho. Conquistamos o espaço, mas não o nosso próprio.
Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores.Limpamos o ar, mas poluímos a alma.
Dominamos o átomo, mas não nosso preconceito.
Escrevemos mais, mas aprendemos menos.
Planejamos mais, mas realizamos menos. Aprendemos a nos apressar e não a esperar.
Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos.
Estamos na era do "fast-food" e da digestão lenta; do homem grande de caráter pequeno; de lucros acentuados e relações vazias.
Esta é a era de dois empregos, vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados. Esta é a era das viagens rápidas, fraldas e moral descartáveis, das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas "mágicas".
Um momento de muita coisa na vitrine e muito pouco na dispensa.
Uma era que leva esta carta a você e uma era que te permite dividir esta reflexão ou, simplesmente, clicar "delete". Lembre-se de passar tempo com as pessoas que você ama, pois elas não estarão por aqui para sempre. Por isto, valorize o que você tem e as pessoas que estão ao seu lado.
George Carlin
terça-feira, 22 de maio de 2007
Exigências da vida moderna
Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro. E uma banana pelo potássio. E também uma laranja pela vitamina C. Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir o diabetes. Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que, aos bilhões, ajudam a digestão). Cada dia uma Aspirina, previne infarto. Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso. Um copo de cerveja, para... não lembro bem para o que, mas faz bem. O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver. Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente. E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia. E não esqueça de escovar os dentes depois de comer.Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passarfio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax. Melhor inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia. Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma. Sobram três, desde que você não pegue trânsito. As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma). E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando. Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.Ah! E o sexo. Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo e nem estou falando de sexo tântrico. Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação. Na minha conta são 29 horas por dia. A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo! Tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos e seus pais. Beba o vinho, coma a maçã e dê a banana na boca da sua mulher. Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio. Agora tenho que ir. É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro. E já que vou, levo um jornal...
(Luís Fernando Veríssimo)
(Luís Fernando Veríssimo)
O Globo - Estamos nos deformando com os escândalos nacionais
Sinto muito, mas a foto daquela ponte entre o nada e o nada, nos jornais, as encostas de lama que não foram nem tocadas pelas repulsivas empreiteiras que receberam milhões para contê-las me paralisaram na depressão. Não tenho mais forças para clamar pela razão, pela Lei, pela decência, em um país desmoralizado como este. Acho que não adianta nada. Por isso, vou me repetir. Publico, abaixo, uma nova versão, revista e atualizada, de um texto aqui escrito, um ano e meio atrás. Repito-me, como a sordidez e a impunidade se repetem. Nada acontecerá com esses cães do inferno. Nada. Só nos restam as maldições.
Aqui vão:
Malditos sejais, ó, mentirosos, negadores, defraudadores, vigaristas, trampistas, intrujões, chupistas, tartufos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas pútridas, que vossas línguas mentirosas sequem e que água alguma vos dessedente, que vossas mentiras, patranhas, marandubas, fraudes, lérias e aldravices se transformem em cobras peçonhentas que se enrosquem em vossos pescoços, que entrem por vossos rabos, cus, rabiotes e fundilhos e lá depositem venenosos ovos que vos depauperem em diarréias torrenciais e devastadoras. Que vossas línguas se atrofiem em asquerosos sapos e bichos pustulentos que vos impedirão de beijar vossas amantes, prostitutas, barregãs e micheteiras que vos recebem nos lupanares de Brasília, nos prostíbulos mentais onde viveis, refocilando-se nas delícias da roubalheira.
Malditos sejais, ladrões, gatunos, pichelingues, unhantes, ratoneiros, trabuqueiros dos dinheiros públicos, dos quais agadanhais, expropriais mais da metade de todos os orçamentos, deixando viadutos no ar, pontes no nada, esgotos a céu aberto e crianças mortas de fome, mortas de tudo.
Que a maldição de todas as pragas do Egito e do Deuteronômio vos impeça de comer os frutos de vossas fazendas escravistas, que não possais degustar o pão de vossos fornos, nem o milho de vossos campos, e que vossas amantes vos traiam e contaminem com as mais escabrosas doenças e repugnantes furúnculos!
Malditos sejais, homúnculos dedicados a se infiltrar nas brechas, nas breubas do Estado para malversar, rapinar, larapiar desde pequenas gorjetas embolsadas como a do Marinho, naquele gesto eternizado na TV, até essa doença nacional chamada Maranhão, onde vos enquistais há quarenta anos, no revezamento sinistro de negociarrões com empresas-fantasmas em terrenos baldios, até a rapinagem de todas os mínimos picuás dos miseráveis.
Malditas sejam as caras de pau dos ladravazes, com seus ascorosos sorrisos, imunda honradez ostentada, gélido cinismo, baseado na crapulosa legislação que os protege há quatro séculos, por compradiços juízes, repulsivos desembargadores, fariseus que vendilham sentenças por interesses políticos, ocultados por intrincados circunlóquios jurídicos, solenes lero-leros para compadrios e favores aos poderosos! Que vossas togas se virem em abutres famintos que vos devorem o fígado, acelerando vossas mortes que virão por vossa ridícula sisudez esclerosada com que justificais liminares e chicanas que liberam criminosos ricos e apodrecem pobres pretos na boca-do-boi de nossas prisões!
Malditos sejais, burocratas, sicofantas, enfiados na máquina pública, emperrando-a e sugando migalhas do Estado com voracidade e gula! Tomara que sejais devorados pelos carunchos que rastejam nos processos empoeirados da burocracia que impede o país de andar! Que a poeira dos arquivos mortos vos sufoque e envenene como o trigo roxo dos ratos!
Malditas sejam também as "consciências virginais", as mentes "puras"; malditos os alienados e covardes, malditos os limpos, os não culpados, os indiferentes, que se acham superiores aos que sofrem e pecam; malditos intelectuais silenciosos que ficam agarrados em seus dogmas, que se "escandalizam" com os horrores, mas nada fazem.
Maldita seja também a indiferença narcisista de Lula, déspota sindicalista que vive da herança bendita que recebeu e não mete a cara para mudar a legislação das licitações, das concorrências públicas, criando métodos de transparência legal à vista da população, pois ele não quer fazer nem reformas nem marola e perder seu sossego. Que gordas sanguessugas e carrapatos carcomam seus bonés, barretes, toucas e infectem sua barba de estadista deslumbrado.
Malditos também os que desejam trazer de volta a irresponsabilidade fiscal , malditos anjos da cara suja, malditos espertos fugitivos da cassação, anatematizados e desgraçados sejam os que levam dólares na cueca e, mais que eles, os que levam dólares às Bahamas, malditos os que usam o "amor ao povo" para justificar suas ambições fracassadas, malditos severinos que rondam ainda, malditos waldomiros e waldemares que rondam ainda, malditos bolchevistas que agora são arroz-de-festa de intelectuais mal informados; malditos sejam, pois neles há o desejo de fazer regredir o Brasil para o velho Atraso pustulento, em nome de suas ideologias infantis!
Se eles prevalecerem, voltará o dragão da Inflação, com sete cabeças e dez chifres e sete coroas em cada cabeça, e a prostituta do Atraso virá montada nele, berrando todas as blasfêmias, vestida de vermelho, segurando uma taça cheia de abominações. E ela, a besta do Atraso, estará bêbada com o sangue dos pobres e em sua testa estará escrito: "Mãe de todas as meretrizes e Mãe de todos os ladrões que paralisam nosso país".
Só nos resta isso: maldizer.
Portanto: que a peste negra vos devore a alma, políticos canalhas, que vossos cabelos com brilhantina vos cubram de uma gosma repulsiva, que vossas gravatas bregas vos enforquem, que os arcanjos vingadores vos exterminem para sempre!
Aqui vão:
Malditos sejais, ó, mentirosos, negadores, defraudadores, vigaristas, trampistas, intrujões, chupistas, tartufos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas pútridas, que vossas línguas mentirosas sequem e que água alguma vos dessedente, que vossas mentiras, patranhas, marandubas, fraudes, lérias e aldravices se transformem em cobras peçonhentas que se enrosquem em vossos pescoços, que entrem por vossos rabos, cus, rabiotes e fundilhos e lá depositem venenosos ovos que vos depauperem em diarréias torrenciais e devastadoras. Que vossas línguas se atrofiem em asquerosos sapos e bichos pustulentos que vos impedirão de beijar vossas amantes, prostitutas, barregãs e micheteiras que vos recebem nos lupanares de Brasília, nos prostíbulos mentais onde viveis, refocilando-se nas delícias da roubalheira.
Malditos sejais, ladrões, gatunos, pichelingues, unhantes, ratoneiros, trabuqueiros dos dinheiros públicos, dos quais agadanhais, expropriais mais da metade de todos os orçamentos, deixando viadutos no ar, pontes no nada, esgotos a céu aberto e crianças mortas de fome, mortas de tudo.
Que a maldição de todas as pragas do Egito e do Deuteronômio vos impeça de comer os frutos de vossas fazendas escravistas, que não possais degustar o pão de vossos fornos, nem o milho de vossos campos, e que vossas amantes vos traiam e contaminem com as mais escabrosas doenças e repugnantes furúnculos!
Malditos sejais, homúnculos dedicados a se infiltrar nas brechas, nas breubas do Estado para malversar, rapinar, larapiar desde pequenas gorjetas embolsadas como a do Marinho, naquele gesto eternizado na TV, até essa doença nacional chamada Maranhão, onde vos enquistais há quarenta anos, no revezamento sinistro de negociarrões com empresas-fantasmas em terrenos baldios, até a rapinagem de todas os mínimos picuás dos miseráveis.
Malditas sejam as caras de pau dos ladravazes, com seus ascorosos sorrisos, imunda honradez ostentada, gélido cinismo, baseado na crapulosa legislação que os protege há quatro séculos, por compradiços juízes, repulsivos desembargadores, fariseus que vendilham sentenças por interesses políticos, ocultados por intrincados circunlóquios jurídicos, solenes lero-leros para compadrios e favores aos poderosos! Que vossas togas se virem em abutres famintos que vos devorem o fígado, acelerando vossas mortes que virão por vossa ridícula sisudez esclerosada com que justificais liminares e chicanas que liberam criminosos ricos e apodrecem pobres pretos na boca-do-boi de nossas prisões!
Malditos sejais, burocratas, sicofantas, enfiados na máquina pública, emperrando-a e sugando migalhas do Estado com voracidade e gula! Tomara que sejais devorados pelos carunchos que rastejam nos processos empoeirados da burocracia que impede o país de andar! Que a poeira dos arquivos mortos vos sufoque e envenene como o trigo roxo dos ratos!
Malditas sejam também as "consciências virginais", as mentes "puras"; malditos os alienados e covardes, malditos os limpos, os não culpados, os indiferentes, que se acham superiores aos que sofrem e pecam; malditos intelectuais silenciosos que ficam agarrados em seus dogmas, que se "escandalizam" com os horrores, mas nada fazem.
Maldita seja também a indiferença narcisista de Lula, déspota sindicalista que vive da herança bendita que recebeu e não mete a cara para mudar a legislação das licitações, das concorrências públicas, criando métodos de transparência legal à vista da população, pois ele não quer fazer nem reformas nem marola e perder seu sossego. Que gordas sanguessugas e carrapatos carcomam seus bonés, barretes, toucas e infectem sua barba de estadista deslumbrado.
Malditos também os que desejam trazer de volta a irresponsabilidade fiscal , malditos anjos da cara suja, malditos espertos fugitivos da cassação, anatematizados e desgraçados sejam os que levam dólares na cueca e, mais que eles, os que levam dólares às Bahamas, malditos os que usam o "amor ao povo" para justificar suas ambições fracassadas, malditos severinos que rondam ainda, malditos waldomiros e waldemares que rondam ainda, malditos bolchevistas que agora são arroz-de-festa de intelectuais mal informados; malditos sejam, pois neles há o desejo de fazer regredir o Brasil para o velho Atraso pustulento, em nome de suas ideologias infantis!
Se eles prevalecerem, voltará o dragão da Inflação, com sete cabeças e dez chifres e sete coroas em cada cabeça, e a prostituta do Atraso virá montada nele, berrando todas as blasfêmias, vestida de vermelho, segurando uma taça cheia de abominações. E ela, a besta do Atraso, estará bêbada com o sangue dos pobres e em sua testa estará escrito: "Mãe de todas as meretrizes e Mãe de todos os ladrões que paralisam nosso país".
Só nos resta isso: maldizer.
Portanto: que a peste negra vos devore a alma, políticos canalhas, que vossos cabelos com brilhantina vos cubram de uma gosma repulsiva, que vossas gravatas bregas vos enforquem, que os arcanjos vingadores vos exterminem para sempre!
segunda-feira, 21 de maio de 2007
A infância perdida
Felipe Izar (Pips) e Enzo Menezes
Nas grandes metrópoles, eles são invisíveis. A infância perdida para o trabalho informal, com a desculpa de ajudar no sustento da casa. A reportagem de O Ponto acompanhou meninos e meninas que trocam, sem saber, um crescimento saudável por trocados que não podem tirá-los das ruas. *Os nomes dos entrevistados são fictícios, por determinação do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Nas grandes metrópoles, eles são invisíveis. A infância perdida para o trabalho informal, com a desculpa de ajudar no sustento da casa. A reportagem de O Ponto acompanhou meninos e meninas que trocam, sem saber, um crescimento saudável por trocados que não podem tirá-los das ruas. *Os nomes dos entrevistados são fictícios, por determinação do Estatuto da Criança e do Adolescente.
A garota desconfiada
Dez horas da noite. Mariana* pega os cadernos e volta da escola para casa, cansada, porque trabalhou o dia todo. Os chinelos gastos testemunham seus passos, o estômago quer algum alimento, a cabeça pede descanso. Seria apenas mais uma garota que estuda à noite. Seria. Ela tem quatorze anos.
Dez horas da noite. Mariana* pega os cadernos e volta da escola para casa, cansada, porque trabalhou o dia todo. Os chinelos gastos testemunham seus passos, o estômago quer algum alimento, a cabeça pede descanso. Seria apenas mais uma garota que estuda à noite. Seria. Ela tem quatorze anos.
-Por que você estuda à noite?
-Trabalho de dia.
- Você faz malabarismo nesse sinal? – Seus braços finos carregam uns gravetos. Mal carregam gravetos. Não parece ter dez anos.
Nove horas da manhã. É quando sua jornada começa, ao lado da irmã, Joyce*. Joyce tem dez anos. Reveza com a irmã o passeio entre os carros, busca moedas.
- Muita gente dá trocado. Muita gente fecha o vidro.
Enquanto os carros passam, rói as unhas, sob a sombra de uma árvore no canteiro central. Não aparenta mais de cinco anos. Desconfia.
Mariana fica atenta enquanto estamos por perto. Correm ao atravessar a avenida, de mãos dadas, e descobrem uma mulher escondida entre as árvores. Apontam onde estamos, ficam inquietas. A mãe entende logo, nossa presença é hostil. Manda as duas de volta para o sinal e desaparece. Ali perto.
- Não, foto não!
Elas correm e escondem o rosto, rindo. Mal percebem que a infância foge entre aqueles canteiros, sem freios, com as folhas que caem no asfalto e os carros passam por cima.
O menino sob os ombros do amigo
10 horas da manha de sábado. É quando Vagner*, dois irmãos e dois amigos vão para a avenida ganhar dinheiro. Muita gente trabalha aos sábados, mas poucas têm suas idades - Vagner* tem 17, Luan*, 15, Francisco*, 14, Antônio* 10, e Lucas*, apenas 8 anos.
O menino sob os ombros do amigo
10 horas da manha de sábado. É quando Vagner*, dois irmãos e dois amigos vão para a avenida ganhar dinheiro. Muita gente trabalha aos sábados, mas poucas têm suas idades - Vagner* tem 17, Luan*, 15, Francisco*, 14, Antônio* 10, e Lucas*, apenas 8 anos.
“Ajudo minha família”, afirma o mais velho. “Às vezes me chamam de vagabundo, me mandam arrumar trabalho. Já roubei e fui preso, essa vida não é pra mim”, desabafa.
- Luan, você estuda?
- Não. Tá difícil arrumar vaga. A moça do Bolsa Escola foi lá em casa e prometeu um lugar para mim, mas até hoje não cumpriu a promessa. Eu quero estudar, ter um futuro.
Os meninos fazem malabarismo com fogo. Sobem nos ombros dos amigos, são prodigiosos no espetáculo que realizam. Espanta a tranqüilidade com que apresentam o número. Enfrentam a multidão de carros e as pessoas apressadas que assistem ao show, ora com um olhar de indulgência, ora com admiração, quase sempre com desinteresse.
Mas os garotos se orgulham de mostrar o que sabem. Gostam quando pegamos a câmera fotográfica.
- Tira mais!
E, como alguns paradoxos inexplicáveis, sorriem para a câmera, como se a felicidade dependesse de pouco. E depende mesmo.
- Como você aprendeu a fazer malabarismo, Francisco?
- Aprendi com meu irmão, Vagner.
- Você estuda?
- Estudo. Mas tenho que trabalhar para ajudar em casa.
Às vezes, olham para o céu em busca de força. E se deparam com prédios imponentes, tão altos que parecem ser infinitos. Os pequenos da rua sobrevivem entre o limite de suas forças e o sem fim. Limitados para sonhar, mas infinitamente sonhadores. Limitados para agir, mas infinitamente habilidosos em suas ações.
Por uma boa causa?
A extremidade de uma faixa amarrada em um poste, entre duas avenidas. A outra ponta Luiz* estende, quando os carros param no sinal. Ele se cansa de puxar a faixa o dia todo. Nela, um pedido para ajudar uma equipe de esportistas com deficiência física.
Por uma boa causa?
A extremidade de uma faixa amarrada em um poste, entre duas avenidas. A outra ponta Luiz* estende, quando os carros param no sinal. Ele se cansa de puxar a faixa o dia todo. Nela, um pedido para ajudar uma equipe de esportistas com deficiência física.
Antes, trabalhava nas ruas todos os dias, e fazia pequenos bicos. Hoje só sai de vez em quando.
- Minha mãe não me deixa trabalhar – Uma das poucas frases do garoto durante a conversa. E a única com veemência. Seus gestos, sua fala, sua maneira de repetir o gesto com a faixa denotam a fragilidade em um garoto de 17 anos.
- Ela não gosta quando eu venho pra rua, me manda ir estudar. Mas eu não quero saber de escola, não.
Luiz ajuda João, 25 anos, jogador do time que pede ajuda na rua com uma faixa colorida. João recolhe as moedas na janela dos carros, e move habilmente sua cadeira de rodas. Encostado em um poste, Luiz fica calado. Parece tímido, com vergonha, com medo. Escondido da mãe ele trabalha. Não é possível ao menos dizer se em troca de algo. Os dois ficam sem graça e desconversam quando perguntamos quanto Luiz ganha ali. Quase nada. Talvez pouco. Talvez perca muito mais, sem saber.
Necessidade Cruel
A infância perdida nas faixas de pedestre, assentada no meio fio enquanto o sinal está aberto. Pedir esmola, equilibrar nos ombros do amigo para fazer malabarismos. Em busca de trocados, tomam conta de carros estacionados e vendem balas. São as formas de trabalho infantil mais encontradas nos centros urbanos. Só em Belo Horizonte, 729 crianças trabalham nas ruas, segundo dados da prefeitura. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 2,5 milhões de crianças trabalham em todo o Brasil. A OIT aponta ainda outras faces desse crime: associação com o narcotráfico, exploração sexual e trabalho na agricultura.
A infância perdida nas faixas de pedestre, assentada no meio fio enquanto o sinal está aberto. Pedir esmola, equilibrar nos ombros do amigo para fazer malabarismos. Em busca de trocados, tomam conta de carros estacionados e vendem balas. São as formas de trabalho infantil mais encontradas nos centros urbanos. Só em Belo Horizonte, 729 crianças trabalham nas ruas, segundo dados da prefeitura. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 2,5 milhões de crianças trabalham em todo o Brasil. A OIT aponta ainda outras faces desse crime: associação com o narcotráfico, exploração sexual e trabalho na agricultura.
Sem socialização saudável e formas de lazer, crianças ficam sujeitas às intempéries das ruas e enfrentam os riscos do convívio diário com a violência. Lêem a indiferença das pessoas, ao invés de livros. O ‘Pivete’ estigmatizado em cada um. O ‘não’ frio que recebem em todas as frestas da sociedade. Sem perspectivas, o ciclo de dependência se reproduz.
“A sociedade pensa, de modo geral, que é preferível a infância trabalhar ao invés de roubar. Mas não dá outras opções para as crianças que estão nas ruas”, analisa Marilza Geralda do Nascimento, procuradora do Ministério Público do Trabalho em Minas.
A procuradora explica que o MP ou a Delegacia Regional do Trabalho fiscalizam as denúncias de exploração do trabalho infantil. No caso de uma empresa, o MPT tira o menor dessa condição e propõe ao proprietário a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta, em que a empresa se abstém de contratar menores, sob pena de multa. "Também podemos ajuizar uma ação na justiça. No caso do trabalho das ruas, encaminhamos as crianças para os Conselhos Tutelares de cada cidade", exemplifica. Em 2005, 112 Representações foram abertas pelo MPT, 7 a mais do que no ano passado. Em 2007, o número de Representações já chega a 65, até abril.
Se a criança não possuir registro em algum Conselho Tutelar, a Prefeitura tenta resgata-la das ruas através do seu programa de combate ao trabalho infantil. Para isso, há psicólogos e sociólogos que abordam esses jovens e fazem seu cadastro. Depois, são encaminhados aos programas de inclusão social.
Porém, não é tão simples tira-los das ruas. Segundo Maria Clara Marques Braga, assistente social da PBH, a criança, principalmente até os 9 anos, é incentivada pelos pais a trabalhar. “O Bolsa Família e o Bolsa Escola não conseguem suprir as necessidades familiares, e o dinheiro ganho nas ruas, muitas vezes, supera o valor das bolsas”, afirma. 25,5% das crianças ganham em média 280 reais nas ruas. O teto dos programas do governo não ultrapassa R$ 95 reais.
Tirar das ruas os jovens até 17 anos é mais difícil porque eles já têm uma identidade com o trabalho. “Eles se sentem produtivos e, além de ajudarem em casa, conseguem dinheiro para saciar as vontades de um adolescente”, diz Maria Clara. Por isso, 77% dos que trabalham nas ruas têm entre 10 e 17 anos.
Ação parlamentar
A Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente foi criada na Assembléia Legislativa em 2000, com base no Estatuto da Criança e do Adolescente. Uma de suas funções é combater o trabalho infantil na esfera legislativa. Para isso, deputados dialogam com movimentos sociais que combatem a exploração de crianças, além de formularem políticas públicas em defesa dos jovens.
A Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente foi criada na Assembléia Legislativa em 2000, com base no Estatuto da Criança e do Adolescente. Uma de suas funções é combater o trabalho infantil na esfera legislativa. Para isso, deputados dialogam com movimentos sociais que combatem a exploração de crianças, além de formularem políticas públicas em defesa dos jovens.
O deputado André Quintão (PT), coordenador do grupo desde 2003, define as maiores dificuldades encontradas pela Frente: “A criança que estuda e trabalha se afasta da escola, movida pelo cansaço e pela chance de ganhar mais se permanecer mais tempo nas ruas”, explica. “Além disso, há a questão cultural, pois alguns pais estimulam que os filhos trabalhem. Não há uma noção dos males dessa prática, como se só houvesse essa opção para a infância pobre”, questiona.
A procuradora Marilza do Nascimento também analisa a questão sob a ótica cultural: “Não vemos crianças de classe média nas ruas. Isso reflete a má distribuição de renda e a necessidade que as leva a trabalhar. A sociedade devia se indignar com a infância obtendo renda dessa maneira, e no entanto convivemos com a prática todos os dias”, destaca.
A falta que eles me fazem
“Nossa! Ontem eu descobri outro apelido seu. Um cara te chamou de Peteca”, um amigo disse ao outro no dia seguinte de uma festa. O outro explicou que era devido ao corpo magro e a cabeça grande, e todos nós rimos. - Era da época do colégio.
Nós tínhamos acabado de acordar e, de ressaca, tentávamos lembrar a noite passada. Mas o que me chamou a atenção foi a nostalgia criada por causa do apelido. Eu me lembrei de vários que tive na infância, e de alguns amigos perdidos que me chamavam por esse jeito particular da amizade. Amigos que as prioridades e necessidades da vida me fizeram afastar, e que a maioria não vejo há vários anos. Melhor que fosse assim com todos.
Alguns desses amigos ainda encontro. Pior que perdê-los, é sentir que o tempo realmente conseguiu distanciar um sentimento tão próximo que é a amizade. Por isso, quando ouço um apelido do passado não me sinto bem. Fico feliz por rever alguém depois de muito tempo, mas troco poucas palavras e logo vejo que a intimidade se foi. Em alguns minutos, mais um desencontro e a incerteza se o verei mais uma vez.
Após a efêmera conversa, eu me sinto angustiado. Tento aliviar o desconforto contando casos do passado aos amigos que ainda estão próximos, mas percebo que isso aumenta o vazio em que me encontro.
- Esse cara jogava bola como ninguém. O apelido dele era “Cabeção”.
- Essa menina é linda! Estudava comigo, na 7º série. È a “Fê”.
- Teve um dia...
Com isso, eu me calo. E em silêncio prometo não distanciar de mais ninguém. Ilusão, eu sei. As exigências da vida não perdoam. Mas prometo mesmo assim.
Ainda um pouco atônito, vou me conformando com o que houve, e fico com vontade de cuidar, cada vez mais, desse sentimento que tanto me faz falta. Um sentimento que me constrói, que me faz crescer, aprender, respeitar o encontro com o outro, conviver.
Felipe Izar (Pips)
domingo, 20 de maio de 2007
É que a sorte é preciso tirar pra ter
É bom escrever sempre e é bom guardar as coisas que passaram. Marcar presença.
Nesses últimos dias muitas coisas... Coisas que gosto de expor, como quase tudo em minha vida, e coisas que dessa vez não vou contar pra ninguém. Pelo menos por enquanto.
Meu time perdeu. Perdeu no Campeonato Mineiro e na Copa do Brasil. Deu mole e me fez passar raiva. Mas raiva passa também.
Minha banda favorita acabou. 8 de junho será o show de despedida. "Assim que quer, assim será, eu vou pra não voltar..." Vou sentir falta dos shows super empolgados e a Patota toda junta cantando em uníssono. Mas deixa estar.. deixa ser como será.
Patota. São os amigos. É a minha alegria. Uma turma diferente de todas as outras que eu já conheci. Sem vergonha de ser feliz, de cantar alto, de dançar junto, de falar bobeira e de não falar também. É intimidade, liberdade, reciprocidade. É cerveja. E com certeza é festa. E eu amo. Fico diferente quando estou ao lado deles... Não é um diferente ruim, daqueles que faz a pessoa ser o que não é. Longe disso, eu prefiro sempre ser a parecer. É um diferente extremamente feliz, tanto que às vezes fico até retardada com essa felicidade. Sem eles acho que sou pá furada.
Gostar talvez seja isso.
Talvez tenha sido sorte encontrar pessoas assim.
Eh, meu time perdeu mas eu tenho sorte. E agora eu vou lá... "vou levando assim, que o acaso é amigo do meu coração. Quando falo comigo. Quando eu sei ouvir."
Nesses últimos dias muitas coisas... Coisas que gosto de expor, como quase tudo em minha vida, e coisas que dessa vez não vou contar pra ninguém. Pelo menos por enquanto.
Meu time perdeu. Perdeu no Campeonato Mineiro e na Copa do Brasil. Deu mole e me fez passar raiva. Mas raiva passa também.
Minha banda favorita acabou. 8 de junho será o show de despedida. "Assim que quer, assim será, eu vou pra não voltar..." Vou sentir falta dos shows super empolgados e a Patota toda junta cantando em uníssono. Mas deixa estar.. deixa ser como será.
Patota. São os amigos. É a minha alegria. Uma turma diferente de todas as outras que eu já conheci. Sem vergonha de ser feliz, de cantar alto, de dançar junto, de falar bobeira e de não falar também. É intimidade, liberdade, reciprocidade. É cerveja. E com certeza é festa. E eu amo. Fico diferente quando estou ao lado deles... Não é um diferente ruim, daqueles que faz a pessoa ser o que não é. Longe disso, eu prefiro sempre ser a parecer. É um diferente extremamente feliz, tanto que às vezes fico até retardada com essa felicidade. Sem eles acho que sou pá furada.
Gostar talvez seja isso.
Talvez tenha sido sorte encontrar pessoas assim.
Eh, meu time perdeu mas eu tenho sorte. E agora eu vou lá... "vou levando assim, que o acaso é amigo do meu coração. Quando falo comigo. Quando eu sei ouvir."
Janaína Salgado (Jana)
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