O que eu faço para te ter?, perguntou o menino...
Eu já fui burro e já fui inteligente,
já fui grosso e romântico,
já fui mentiroso e sincero,
já me distanciei e já fiquei no seu pé,
já te impressionei e já deixei de te impressionar,
já toquei uma música só pra ouvir você cantar,
já fiz sexo por prazer e já fiz amor,
já ri da sua cara e já chorei por não vê-la mais,
nem quis sair de casa pra te ver e já rodei o mundo pra te encontrar,
já te olhei com desprezo e depois com devoção,
já te taxei de vadia à mais pura das criaturas,
tão lépida que já ironizei e depois vi a felicidade;
me diz então, minha linda: O que mais eu faço pra te ter?
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
À flor da pele
Sempre gostei de música. Para mim, escutar uma composição nunca foi insignificante; pelo contrário, sempre elevou meus sentimentos. Em 11 de outubro de 2007 minha sensibilidade estava ainda maior. Neste dia, eu viajei de carro para o Rio de Janeiro com mais quatro amigos, e no caminho a expectativa para as aventuras na cidade maravilhosa me deixara num expressivo estado de nervos. Nós ouvimos música durante quase toda viagem, e meus pensamentos “viajaram” sem noção de tempo e espaço; e o meu corpo respondeu aos efeitos das diversas composições que escutei.
Sim. Vários estilos musicais, com harmonias e melodias diferentes me deixaram atônito, alegre, furioso, elétrico, amargo - entre outros - durante as seis horas de Belo Horizonte até o Rio. O motivo de tantos sentimentos deve-se a uma inovação tecnológica chamada mp3. Com este recurso, que diminui os bits de um arquivo e proporciona um espaço maior para a gravação de áudio, eu coloquei 100 canções de várias bandas em apenas um CD. Além disso, mudei a configuração do som do carro para o modo shuffle, que faz as músicas não serem ouvidas em uma seqüência cronológica – depois da música um não temos mais controle, o som escolhe um número aleatoriamente -; e assim a próxima canção era sempre um mistério. Eu quase enlouqueci. Não dava para saber o que eu iria sentir.
Na primeira parte da viagem o CD nos ofereceu três músicas de um grupo de Heavy Metal, o Iron Maiden. Alguns amigos reclamaram.
- Que barulheira! , disse a única mulher que estava no carro.
- Troca de CD! , completou um outro amigo.
Mas esta banda marcou minha infância, e logo tive a sensação de nostalgia. Lembrei-me de quando eu deixava o cabelo grande, para me parecer com os integrantes do Iron e balançar a cabeça enquanto eu tocava guitarra. Ri sozinho, jurei que eu não faria aquilo de novo. Depois, voltei ao calor da viagem e o estilo agressivo da banda me dominou. O som das guitarras distorcidas, da bateria com a batida do bumbo socando o peito, do baixo com um toque cavalado e do vocal rouco me deixaram com raiva, com vontade de gritar. Desabafei. Coloquei a cabeça para fora da janela do carro e exigi o máximo de minhas cordas vocais. O som que saiu de minha boca se perdeu pelo ar e eu voltei por completo ao veículo com a sensação de alívio.
Após as músicas iniciais, o mp3 e o modo shuffle evidenciaram suas ações. O som pesado do Iron transformou-se na melancolia do Los Hermanos; era a música “Sentimental”, de Rodrigo Amarante. Uma canção lenta, com acordes de guitarra que lembram a bossa-nova, e um pouquinho de distorção no som dos instrumentos para transparecer a mistura de Rock-Bossa. Nessa hora eu pensei em ex-namoradas, futuros namoros, o jeito das mulheres que eu poderia me encantar na cidade maravilhosa. Era uma combinação de momentos dramáticos e de alegria. Depois ainda me arrepiei com o comentário sobre a música de um amigo que estava no carro.
- “Sentimental” ele fez para a filha dele, e não para uma mulher como todos pensam. A frase “eu só aceito a condição de ter você só pra mim” é na verdade o ciúme do pai com o namoro de sua filhinha.
O CD continuou seu ciclo indecifrável e o Rock and Roll voltou à tona. Só que agora em seu estilo mais fiel: era a vez de Jimi Hendrix entrar em nosso corpo. O som da guitarra cortante, com solos nervosos e improvisados, e a bateria que raramente repete uma batida, traziam uma vontade de rasgar a pele, abrir o peito, “colocar a cara” para defender uma causa. Eu encontrava-me num Woodstock particular e atual. Protestava contra o governo; contra a corrupção no senado; contra os discursos eloqüentes dos políticos, mas que não passam de falsos; e contra as iniqüidades com o povo de classe social mais baixa. O protesto era sem muito aprofundamento, pois minha fúria era mais forte do que a organização das idéias.
Como mágica, da década de 1960 de Hendrix eu passei para a de 1990. O CD começou a tocar o som do Incubus, uma banda de rock mais moderna, que tem cheiro de tecnologia. Os integrantes do grupo usam muito o recurso eletrônico, mas sem abandonar as distorções e a pegada forte. Era como se meu organismo estivesse sendo digitalizado, e ao mesmo tempo o som agressivo do rock arrancava os fios da rede que se formava. Uma briga intensa entre a inovação tecnológica e o velho som de qualidade. Os meus amigos gostam deste estilo. Iam, inclusive, num show desta banda no Rio e estavam empolgados.
- Incubus é muito bom. Inovou sem deixar de lado as raízes do rock and roll, observou um deles.
- Eu vou pirar neste show, garantiu a menina.
Pirado já estava eu, de tantos sentimentos de uma só vez. Quando o CD começou a tocar o som de Steve Vai, então, eu tive que dar um tempo. Ele é um guitarrista que imprime várias notas por segundo, virtuoso, lenda da guitarra. Tão pouco é possível entender as notas de tão rápidas. Meu estômago ia embrulhandoembrulhandoembrulhandoembrulhandoembrulahando... Desliguei o som e vi que estávamos chegando ao Rio. Veio um sinal de conforto, um silêncio que não incomoda. A intimidade e a confiança eram marcantes entre aqueles amigos e eu sempre achei valioso preservar isso. Mas logo pensei que podia perdê-los; todos um dia iriam trabalhar, e talvez mudar de cidade, estado, país. Agora, eram a tristeza e a felicidade que me confundiam; e o conforto fora embora. Como música, aquele silêncio me trazia sentimentos à flor da pele.
Felipe Izar
Sim. Vários estilos musicais, com harmonias e melodias diferentes me deixaram atônito, alegre, furioso, elétrico, amargo - entre outros - durante as seis horas de Belo Horizonte até o Rio. O motivo de tantos sentimentos deve-se a uma inovação tecnológica chamada mp3. Com este recurso, que diminui os bits de um arquivo e proporciona um espaço maior para a gravação de áudio, eu coloquei 100 canções de várias bandas em apenas um CD. Além disso, mudei a configuração do som do carro para o modo shuffle, que faz as músicas não serem ouvidas em uma seqüência cronológica – depois da música um não temos mais controle, o som escolhe um número aleatoriamente -; e assim a próxima canção era sempre um mistério. Eu quase enlouqueci. Não dava para saber o que eu iria sentir.
Na primeira parte da viagem o CD nos ofereceu três músicas de um grupo de Heavy Metal, o Iron Maiden. Alguns amigos reclamaram.
- Que barulheira! , disse a única mulher que estava no carro.
- Troca de CD! , completou um outro amigo.
Mas esta banda marcou minha infância, e logo tive a sensação de nostalgia. Lembrei-me de quando eu deixava o cabelo grande, para me parecer com os integrantes do Iron e balançar a cabeça enquanto eu tocava guitarra. Ri sozinho, jurei que eu não faria aquilo de novo. Depois, voltei ao calor da viagem e o estilo agressivo da banda me dominou. O som das guitarras distorcidas, da bateria com a batida do bumbo socando o peito, do baixo com um toque cavalado e do vocal rouco me deixaram com raiva, com vontade de gritar. Desabafei. Coloquei a cabeça para fora da janela do carro e exigi o máximo de minhas cordas vocais. O som que saiu de minha boca se perdeu pelo ar e eu voltei por completo ao veículo com a sensação de alívio.
Após as músicas iniciais, o mp3 e o modo shuffle evidenciaram suas ações. O som pesado do Iron transformou-se na melancolia do Los Hermanos; era a música “Sentimental”, de Rodrigo Amarante. Uma canção lenta, com acordes de guitarra que lembram a bossa-nova, e um pouquinho de distorção no som dos instrumentos para transparecer a mistura de Rock-Bossa. Nessa hora eu pensei em ex-namoradas, futuros namoros, o jeito das mulheres que eu poderia me encantar na cidade maravilhosa. Era uma combinação de momentos dramáticos e de alegria. Depois ainda me arrepiei com o comentário sobre a música de um amigo que estava no carro.
- “Sentimental” ele fez para a filha dele, e não para uma mulher como todos pensam. A frase “eu só aceito a condição de ter você só pra mim” é na verdade o ciúme do pai com o namoro de sua filhinha.
O CD continuou seu ciclo indecifrável e o Rock and Roll voltou à tona. Só que agora em seu estilo mais fiel: era a vez de Jimi Hendrix entrar em nosso corpo. O som da guitarra cortante, com solos nervosos e improvisados, e a bateria que raramente repete uma batida, traziam uma vontade de rasgar a pele, abrir o peito, “colocar a cara” para defender uma causa. Eu encontrava-me num Woodstock particular e atual. Protestava contra o governo; contra a corrupção no senado; contra os discursos eloqüentes dos políticos, mas que não passam de falsos; e contra as iniqüidades com o povo de classe social mais baixa. O protesto era sem muito aprofundamento, pois minha fúria era mais forte do que a organização das idéias.
Como mágica, da década de 1960 de Hendrix eu passei para a de 1990. O CD começou a tocar o som do Incubus, uma banda de rock mais moderna, que tem cheiro de tecnologia. Os integrantes do grupo usam muito o recurso eletrônico, mas sem abandonar as distorções e a pegada forte. Era como se meu organismo estivesse sendo digitalizado, e ao mesmo tempo o som agressivo do rock arrancava os fios da rede que se formava. Uma briga intensa entre a inovação tecnológica e o velho som de qualidade. Os meus amigos gostam deste estilo. Iam, inclusive, num show desta banda no Rio e estavam empolgados.
- Incubus é muito bom. Inovou sem deixar de lado as raízes do rock and roll, observou um deles.
- Eu vou pirar neste show, garantiu a menina.
Pirado já estava eu, de tantos sentimentos de uma só vez. Quando o CD começou a tocar o som de Steve Vai, então, eu tive que dar um tempo. Ele é um guitarrista que imprime várias notas por segundo, virtuoso, lenda da guitarra. Tão pouco é possível entender as notas de tão rápidas. Meu estômago ia embrulhandoembrulhandoembrulhandoembrulhandoembrulahando... Desliguei o som e vi que estávamos chegando ao Rio. Veio um sinal de conforto, um silêncio que não incomoda. A intimidade e a confiança eram marcantes entre aqueles amigos e eu sempre achei valioso preservar isso. Mas logo pensei que podia perdê-los; todos um dia iriam trabalhar, e talvez mudar de cidade, estado, país. Agora, eram a tristeza e a felicidade que me confundiam; e o conforto fora embora. Como música, aquele silêncio me trazia sentimentos à flor da pele.
Felipe Izar
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
100 dias que mudaram a música
Achei no blog da Luiza Voll que por sinal é mto, mto bom.
Eu não li tooodos os dias, mas tem uns que realmente mudaram a música. Vale a pena ver.
Link: 100 Days That Changed Music
Ah, ta em inglês.
Eu não li tooodos os dias, mas tem uns que realmente mudaram a música. Vale a pena ver.
Link: 100 Days That Changed Music
Ah, ta em inglês.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Fã de futebol
Ronaldo Pelota tinha 22 anos e morava em Belo Horizonte. Ex-estudante de jornalismo, ele dizia que a única razão de ter escolhido este curso era para ficar ainda mais perto de sua maior paixão: o futebol. Pelota ia a todos os jogos do Clube Atlético Mineiro, time que até hoje ele se refere como “O Glorioso”. Não importava se sua mãe, seu pai, ou sua namorada reclamassem. Jogo era jogo e ele, como atleticano fanático, tinha que comparecer ao estádio do Mineirão, em todas as partidas do galo.
Mas nesta época – no ano de 2007 – ocorreu algo atípico, bem mais sério do que todo o seu envolvimento com o futebol até então: O Brasil fora nomeado o país sede da copa do mundo de 2014. Para Ronaldo Pelota, essa conquista não era apenas para ele comemorar; era para programar a sua participação no maior evento de futebol do planeta. E ele sonhou...
Sonhou com os jogos no Mineirão, no Maracanã, na Ilha do Retiro. Na angústia de um gol que não sai; na vibração de uma jogada de efeito. Pelota também sempre se encantou com a festa da torcida, e imaginou as bandeiras verde-e-amarelas dialogando com o apoio das mãos de cada cidadão brasileiro. Não tinha jeito. Aquela festa tinha que fazer parte da vida deste homem.
Empolgado com o sonho, quando Ronaldo Pelota despertou ele não se conteve. Era hora de começar a se preparar para a copa do mundo. Em seis anos e alguns meses tinha que dar tempo.
Logo pensou em ganhar dinheiro, pois Assistir aos jogos da seleção brasileira por todo o país não seria barato. Então, Pelota abandonou o jornalismo. Ele ouvia das pessoas que era uma profissão de pobre, com um mercado de trabalho saturado, e que até 2014 ele não conseguiria chegar à copa como um jornalista. Ele concordou; apressou-se em fazer vestibular para Direito e começou a graduação em janeiro de 2008. Como este curso exige cinco anos de dedicação – terminaria no fim de 2012 -, para conseguir dinheiro Pelota tinha que sair da universidade com um emprego garantido. Para isso, ele começou a estudar mais do que a profissão determinava. A missão era fazer um concurso no final de sua graduação, que lhe rendesse um salário mensal de, no mínimo, R$5 mil reais, durante todo o ano de 2013.
Porém, não bastava apenas o sucesso profissional. Para ficar com a consciência tranqüila e ser respeitado, Ronaldo Pelota tinha que tentar montar uma família, com uma mulher que quisesse ter no máximo dois filhos. Seria humilhante não ter perspectivas de se casar com 29 anos. No entanto, a mulher tinha que gostar de futebol, ou no mínimo não se importar com a viagem programada. Realmente não era uma tarefa fácil, e por isso exigia tempo. E ele foi a luta...
Uma vez Pelota passou pelas quadras da universidade e viu uma moça jogando futebol com os homens. Forçosamente olhou para as suas pernas e comentou: “Que pernas grossas! Um pouco cabeludas, mas bem definidas”. Fominha de bola, ele entrou na pelada e logo deu um jeito de ser do time de sua musa. Apresentou-se como Ronaldo Matador e fez jogadas excepcionais. Pelota era bom nisso.
Mas a intenção naquele momento era nada a não ser a conquista da mulher perfeita. O “garanhão” Jogava olhares sensuais e tentava conversar com a moça nos intervalos do jogo. Ele queria “mexer com ela” e, depois de muito insistir, conseguir uma resposta sobre um encontro. E teve: “Ronaldão, depois da pelada vamos tomar uma cerva no boteco”!? Pelota tratou de nunca mais encontrar com aquela mulher. O futuro casamento podia esperar mais um pouco.
Dizem que as pessoas não escolhem por quem se apaixonar. Pois Pelota nem podia pensar nesta hipótese, era muito arriscado. Se apaixonar pela pessoa errada seria uma estupidez, a perda de um sonho, de uma vida. Só que ele se esqueceu que o homem é de fato estúpido quando está perto de lindas mulheres. E fraquejou.
Conheceu Ana Luiza Cavalcanti. Mulher de gênio forte, poderosa nas altas camadas sociais, linda; nem pelota sabe como conseguiu arrancar um beijo desta moça. E logo viria a derrocada. Ele descobriu o maior defeito de sua nova namorada: ela não era muito “chegada” ao jogo de futebol. Pelota ficou desolado, não poderia imaginar uma coisa dessas. Nem imaginar que por estar tão apaixonado não poderia abandonar sua amada. O jeito era continuar com o projeto da copa de 2014 e não contar para a sua mulher.
No final do curso de Direito, Pelota ainda namorava com Ana Luisa. Aquele momento seria decisivo em sua vida. Ela estava louca para casar e ter filhos. E agora, com quase 29 anos, ele percebeu que se passasse no concurso ia ter que usar o dinheiro para o casamento, a lua de mel, a nova casa, os futuros filhos. Ele estava perdido. A paixão por Ana Luisa era muito forte. Além disso, a família da moça exigia o casamento, pressionava, ele não poderia fazer a menina de “boba”. E seus pais também pressionavam: “Tem que casar naldinho, a moça é uma menina de família, não desrespeite ela”!
No fim do ano veio a formatura e o resultado do concurso. Ele não tinha dúvidas, iria passar, e passou. Agora o dilema de Pelota era trabalhar o ano inteiro para ir a copa do mundo ou para se casar. O tempo estava passando, a pressão pelo casamento aumentava e Pelota não achava a resposta. Ele pensava: “Ela não vai querer passar a lua de mel no Maracanã. O que eu faço”? Cada vez mais a solução fugia de seus pensamentos. O sonho estava se extinguindo...
No final de 2013, teve uma festa de fim de ano da família. Todos esperavam o pedido de casamento. Pelota estava nervoso, ainda não sabia o que fazer. Ele tinha que ser forte, Copa do Mundo não acontecia todo ano no Brasil.
Até que Chegou a hora do jantar. Pelota estava em frente à Ana Luisa, e ele tinha a sensação de que todos o olhavam a espera do pedido. Foi quando Ana perguntou: “Amor, você não tem nada a dizer”? Pelota foi seco, não poderia dar chance para o perdão e nem para conversas: “Não”! Ele levantou da mesa e saiu sem dar explicações.
O ano de 2014 estava muito agitado. Afinal, era a segunda copa do mundo a ser realizada no Brasil. Pelota já havia ido a todos os jogos da seleção; Só faltava o último, a grande final, que seria no Maracanã. Esse jogo era histórico; o Brasil havia perdido aquele clássico de 1950 para o Uruguai e agora teria a revanche. É isso mesmo. Os uruguaios estavam nas finais. Houve muita especulação sobre um esquema que colocou os dois times naquela situação, ainda mais que o Uruguai já não tinha “aquele” grande elenco. E ele viveu...
Viveu a angústia de um gol que não sai; a vibração de uma jogada de efeito; a festa da torcida; as bandeiras verde-e-amarelas dialogando com o apoio das mãos de cada cidadão brasileiro. Pois não deu outra. Brasil campeão, e a ferida de 50 foi cicatrizada.
Muita comemoração marcou aquele dia no Rio de Janeiro. Pelota, por ter ido a todos os jogos, ganhou o direito de comemorar a conquista junto com os jogadores. Cumprimentou, tirou fotos, abraçou, até “bateu uma bola”. Quando de repente viu Ana Luisa. A sua ex-namorada estava nos braços de um dos jogadores, dando beijos cada vez mais empolgantes. Pelota não se conteve e perguntou: “Ana, você me disse que não gostava de futebol”! Ela não hesitou: “Não lhe contei que você me conquistou em uma das peladas que eu assistia na universidade”?
Felipe Izar
Mas nesta época – no ano de 2007 – ocorreu algo atípico, bem mais sério do que todo o seu envolvimento com o futebol até então: O Brasil fora nomeado o país sede da copa do mundo de 2014. Para Ronaldo Pelota, essa conquista não era apenas para ele comemorar; era para programar a sua participação no maior evento de futebol do planeta. E ele sonhou...
Sonhou com os jogos no Mineirão, no Maracanã, na Ilha do Retiro. Na angústia de um gol que não sai; na vibração de uma jogada de efeito. Pelota também sempre se encantou com a festa da torcida, e imaginou as bandeiras verde-e-amarelas dialogando com o apoio das mãos de cada cidadão brasileiro. Não tinha jeito. Aquela festa tinha que fazer parte da vida deste homem.
Empolgado com o sonho, quando Ronaldo Pelota despertou ele não se conteve. Era hora de começar a se preparar para a copa do mundo. Em seis anos e alguns meses tinha que dar tempo.
Logo pensou em ganhar dinheiro, pois Assistir aos jogos da seleção brasileira por todo o país não seria barato. Então, Pelota abandonou o jornalismo. Ele ouvia das pessoas que era uma profissão de pobre, com um mercado de trabalho saturado, e que até 2014 ele não conseguiria chegar à copa como um jornalista. Ele concordou; apressou-se em fazer vestibular para Direito e começou a graduação em janeiro de 2008. Como este curso exige cinco anos de dedicação – terminaria no fim de 2012 -, para conseguir dinheiro Pelota tinha que sair da universidade com um emprego garantido. Para isso, ele começou a estudar mais do que a profissão determinava. A missão era fazer um concurso no final de sua graduação, que lhe rendesse um salário mensal de, no mínimo, R$5 mil reais, durante todo o ano de 2013.
Porém, não bastava apenas o sucesso profissional. Para ficar com a consciência tranqüila e ser respeitado, Ronaldo Pelota tinha que tentar montar uma família, com uma mulher que quisesse ter no máximo dois filhos. Seria humilhante não ter perspectivas de se casar com 29 anos. No entanto, a mulher tinha que gostar de futebol, ou no mínimo não se importar com a viagem programada. Realmente não era uma tarefa fácil, e por isso exigia tempo. E ele foi a luta...
Uma vez Pelota passou pelas quadras da universidade e viu uma moça jogando futebol com os homens. Forçosamente olhou para as suas pernas e comentou: “Que pernas grossas! Um pouco cabeludas, mas bem definidas”. Fominha de bola, ele entrou na pelada e logo deu um jeito de ser do time de sua musa. Apresentou-se como Ronaldo Matador e fez jogadas excepcionais. Pelota era bom nisso.
Mas a intenção naquele momento era nada a não ser a conquista da mulher perfeita. O “garanhão” Jogava olhares sensuais e tentava conversar com a moça nos intervalos do jogo. Ele queria “mexer com ela” e, depois de muito insistir, conseguir uma resposta sobre um encontro. E teve: “Ronaldão, depois da pelada vamos tomar uma cerva no boteco”!? Pelota tratou de nunca mais encontrar com aquela mulher. O futuro casamento podia esperar mais um pouco.
Dizem que as pessoas não escolhem por quem se apaixonar. Pois Pelota nem podia pensar nesta hipótese, era muito arriscado. Se apaixonar pela pessoa errada seria uma estupidez, a perda de um sonho, de uma vida. Só que ele se esqueceu que o homem é de fato estúpido quando está perto de lindas mulheres. E fraquejou.
Conheceu Ana Luiza Cavalcanti. Mulher de gênio forte, poderosa nas altas camadas sociais, linda; nem pelota sabe como conseguiu arrancar um beijo desta moça. E logo viria a derrocada. Ele descobriu o maior defeito de sua nova namorada: ela não era muito “chegada” ao jogo de futebol. Pelota ficou desolado, não poderia imaginar uma coisa dessas. Nem imaginar que por estar tão apaixonado não poderia abandonar sua amada. O jeito era continuar com o projeto da copa de 2014 e não contar para a sua mulher.
No final do curso de Direito, Pelota ainda namorava com Ana Luisa. Aquele momento seria decisivo em sua vida. Ela estava louca para casar e ter filhos. E agora, com quase 29 anos, ele percebeu que se passasse no concurso ia ter que usar o dinheiro para o casamento, a lua de mel, a nova casa, os futuros filhos. Ele estava perdido. A paixão por Ana Luisa era muito forte. Além disso, a família da moça exigia o casamento, pressionava, ele não poderia fazer a menina de “boba”. E seus pais também pressionavam: “Tem que casar naldinho, a moça é uma menina de família, não desrespeite ela”!
No fim do ano veio a formatura e o resultado do concurso. Ele não tinha dúvidas, iria passar, e passou. Agora o dilema de Pelota era trabalhar o ano inteiro para ir a copa do mundo ou para se casar. O tempo estava passando, a pressão pelo casamento aumentava e Pelota não achava a resposta. Ele pensava: “Ela não vai querer passar a lua de mel no Maracanã. O que eu faço”? Cada vez mais a solução fugia de seus pensamentos. O sonho estava se extinguindo...
No final de 2013, teve uma festa de fim de ano da família. Todos esperavam o pedido de casamento. Pelota estava nervoso, ainda não sabia o que fazer. Ele tinha que ser forte, Copa do Mundo não acontecia todo ano no Brasil.
Até que Chegou a hora do jantar. Pelota estava em frente à Ana Luisa, e ele tinha a sensação de que todos o olhavam a espera do pedido. Foi quando Ana perguntou: “Amor, você não tem nada a dizer”? Pelota foi seco, não poderia dar chance para o perdão e nem para conversas: “Não”! Ele levantou da mesa e saiu sem dar explicações.
O ano de 2014 estava muito agitado. Afinal, era a segunda copa do mundo a ser realizada no Brasil. Pelota já havia ido a todos os jogos da seleção; Só faltava o último, a grande final, que seria no Maracanã. Esse jogo era histórico; o Brasil havia perdido aquele clássico de 1950 para o Uruguai e agora teria a revanche. É isso mesmo. Os uruguaios estavam nas finais. Houve muita especulação sobre um esquema que colocou os dois times naquela situação, ainda mais que o Uruguai já não tinha “aquele” grande elenco. E ele viveu...
Viveu a angústia de um gol que não sai; a vibração de uma jogada de efeito; a festa da torcida; as bandeiras verde-e-amarelas dialogando com o apoio das mãos de cada cidadão brasileiro. Pois não deu outra. Brasil campeão, e a ferida de 50 foi cicatrizada.
Muita comemoração marcou aquele dia no Rio de Janeiro. Pelota, por ter ido a todos os jogos, ganhou o direito de comemorar a conquista junto com os jogadores. Cumprimentou, tirou fotos, abraçou, até “bateu uma bola”. Quando de repente viu Ana Luisa. A sua ex-namorada estava nos braços de um dos jogadores, dando beijos cada vez mais empolgantes. Pelota não se conteve e perguntou: “Ana, você me disse que não gostava de futebol”! Ela não hesitou: “Não lhe contei que você me conquistou em uma das peladas que eu assistia na universidade”?
Felipe Izar
Tem churrasco no fim de semana
Os dias estavam lentos e Ronaldo Pelota estava ansioso para o programa do fim de semana. Ele havia combinado com os amigos de fazer um churrasco em seu sítio, que fica em uma cidade a 90 km de Belo Horizonte. O lugar é tranqüilo, com um terreno extenso, que abriga pés de manga, jabuticaba, goiaba, entre outras frutas. Além de ter um curral cheio de vacas que relembra a infância de Pelota – ele acordava às 5h30 da manhã para tomar o leite das vaquinhas.
Mas aquele fim de semana não iria chegar nem perto da tranqüilidade do local. Muita cerveja, carne e bagunça era o que prometia esse encontro com os amigos. Leite, nem pensar. E por isso pelota estava inquieto; ele olhava o relógio de cinco em cinco minutos, ligava para as pessoas de dez em dez, e ainda tinha dificuldades para dormir. Tudo por causa de um simples fim de semana de cerveja e amigos. Para ele isso era o que importava na vida. Além do futebol e da família, é claro. O churrasco era sábado e domingo ele voltaria a Belo Horizonte para assistir o jogo do Glorioso Clube Atlético Mineiro com seu pai.
Quando o fim de semana chegou, a ansiedade já era totalmente incontrolável. Pelota acordou cedo, ligou para todos os amigos e os apressou para a viagem. Iam três carros para o sítio, com sete mulheres e oito homens, e por isso houve um atraso de quase duas horas para a saída de Belo Horizonte. Era um mais enrolado que o outro. Mas o dia estava ensolarado e nada poderia atrapalhar aquele momento.
Chegando à cidade onde se encontra o sítio, Pelota e seus companheiros foram comprar os ingredientes do churrasco. Foi uma luta para escolher o que queriam.
- Eu quero Brahma!
- Eu quero Skol.
- Não, sô! Antártica é mais barata; ainda tem a carne.
Até que eles fizeram a conta de qual seria o melhor custo benefício e decidiram: capricharam na cerveja e compraram a carne com o menor preço e em menor quantidade do que tinham planejado.
- Acho que não vamos precisar de muita comida mesmo não, ponderou Pelota.
A festa começou em grande estilo. Todos bebiam, ouviam Beatles e conversavam sobre assuntos que leram durante a semana – sem muito aprofundamento e com certa informalidade, afinal o álcool já estava fazendo efeito.
- Jack Welch “é o cara”!
- Jack Welch é um fanfarrão, ele não se preocupa com o ser humano!
- Você pode ganhar R$ 2 milhões em dois anos e perder R$ 5 milhões em um minuto na bolsa de valores.
- O João Moreira Sales escreveu uma matéria sobre o FHC! O ex-presidente ganha muito dinheiro no exterior e não sabe nada de Brasil! O jornalismo narrativo...
Depois ainda começaram os “bate papos” sobre quem ficou com quem, quem “pegou” quem.
- Eu “garrei” 35 naquele carnaval.
- Deixa de ser ridículo menino, só pensa nisso!
Lá no sítio todo mundo podia gritar, falar o que quiser; era uma sensação de liberdade inexplicável. Pelota estava feliz, era o que ele esperava do fim de semana. E a festa ainda prometia...
A noite chegou. Amigo beijou amiga e eles já estavam mais “pra lá do que pra cá”. Foi então que Pelota percebeu que a cerveja estava acabando. Isso não poderia acontecer, era preciso comprar mais. Ligaram para o armazém da cidade e estava fechado. Tentaram ir ao sítio vizinho e nada de cerveja. Depois de muitas reclamações, tanto dos homens quanto das mulheres, todos pararam para observar Pelota.
- A noite já era, disse o dono do sítio. E continuou...
- Eu juro que eu preciso de mais cerveja! Eu jurooo...
Eles estavam rindo e Pelota não entendia. Chegou a achar que tinha alguma coisa diferente em seu corpo. Sacudiu a camisa, mexeu no cabelo e nada. Continuou o Protesto, e todos continuaram a rir. Parecia o líder de um governo de esquerda com uma platéia de eleitores direitistas. Pelota só percebeu o problema quando a contradição do discurso se tornou mais que evidente: ele estava em cima da mesa do almoço rogando por mais bebida. Riu tanto quanto os amigos e viu que era a hora de parar de beber. Todos concordaram. Foram para a sala conversar, assistir televisão e aos poucos foram dormir. Uns deitaram no quarto e outros ficaram na sala mesmo.
No dia seguinte Pelota acordou e viu seus amigos esparramados pela casa. Ele deu um sorriso de contentamento porque eles ainda estavam lá, reunidos, e também porque estavam esparramados. Apressou-se em acordá-los, pois precisava ir ao jogo do galo em Belo Horizonte. Eles conversaram um pouco antes de partir. Comentaram sobre o dia anterior, mas não estavam tão empolgados. Agora, faltava mais uma longa semana para um novo reencontro.
Felipe Izar
Mas aquele fim de semana não iria chegar nem perto da tranqüilidade do local. Muita cerveja, carne e bagunça era o que prometia esse encontro com os amigos. Leite, nem pensar. E por isso pelota estava inquieto; ele olhava o relógio de cinco em cinco minutos, ligava para as pessoas de dez em dez, e ainda tinha dificuldades para dormir. Tudo por causa de um simples fim de semana de cerveja e amigos. Para ele isso era o que importava na vida. Além do futebol e da família, é claro. O churrasco era sábado e domingo ele voltaria a Belo Horizonte para assistir o jogo do Glorioso Clube Atlético Mineiro com seu pai.
Quando o fim de semana chegou, a ansiedade já era totalmente incontrolável. Pelota acordou cedo, ligou para todos os amigos e os apressou para a viagem. Iam três carros para o sítio, com sete mulheres e oito homens, e por isso houve um atraso de quase duas horas para a saída de Belo Horizonte. Era um mais enrolado que o outro. Mas o dia estava ensolarado e nada poderia atrapalhar aquele momento.
Chegando à cidade onde se encontra o sítio, Pelota e seus companheiros foram comprar os ingredientes do churrasco. Foi uma luta para escolher o que queriam.
- Eu quero Brahma!
- Eu quero Skol.
- Não, sô! Antártica é mais barata; ainda tem a carne.
Até que eles fizeram a conta de qual seria o melhor custo benefício e decidiram: capricharam na cerveja e compraram a carne com o menor preço e em menor quantidade do que tinham planejado.
- Acho que não vamos precisar de muita comida mesmo não, ponderou Pelota.
A festa começou em grande estilo. Todos bebiam, ouviam Beatles e conversavam sobre assuntos que leram durante a semana – sem muito aprofundamento e com certa informalidade, afinal o álcool já estava fazendo efeito.
- Jack Welch “é o cara”!
- Jack Welch é um fanfarrão, ele não se preocupa com o ser humano!
- Você pode ganhar R$ 2 milhões em dois anos e perder R$ 5 milhões em um minuto na bolsa de valores.
- O João Moreira Sales escreveu uma matéria sobre o FHC! O ex-presidente ganha muito dinheiro no exterior e não sabe nada de Brasil! O jornalismo narrativo...
Depois ainda começaram os “bate papos” sobre quem ficou com quem, quem “pegou” quem.
- Eu “garrei” 35 naquele carnaval.
- Deixa de ser ridículo menino, só pensa nisso!
Lá no sítio todo mundo podia gritar, falar o que quiser; era uma sensação de liberdade inexplicável. Pelota estava feliz, era o que ele esperava do fim de semana. E a festa ainda prometia...
A noite chegou. Amigo beijou amiga e eles já estavam mais “pra lá do que pra cá”. Foi então que Pelota percebeu que a cerveja estava acabando. Isso não poderia acontecer, era preciso comprar mais. Ligaram para o armazém da cidade e estava fechado. Tentaram ir ao sítio vizinho e nada de cerveja. Depois de muitas reclamações, tanto dos homens quanto das mulheres, todos pararam para observar Pelota.
- A noite já era, disse o dono do sítio. E continuou...
- Eu juro que eu preciso de mais cerveja! Eu jurooo...
Eles estavam rindo e Pelota não entendia. Chegou a achar que tinha alguma coisa diferente em seu corpo. Sacudiu a camisa, mexeu no cabelo e nada. Continuou o Protesto, e todos continuaram a rir. Parecia o líder de um governo de esquerda com uma platéia de eleitores direitistas. Pelota só percebeu o problema quando a contradição do discurso se tornou mais que evidente: ele estava em cima da mesa do almoço rogando por mais bebida. Riu tanto quanto os amigos e viu que era a hora de parar de beber. Todos concordaram. Foram para a sala conversar, assistir televisão e aos poucos foram dormir. Uns deitaram no quarto e outros ficaram na sala mesmo.
No dia seguinte Pelota acordou e viu seus amigos esparramados pela casa. Ele deu um sorriso de contentamento porque eles ainda estavam lá, reunidos, e também porque estavam esparramados. Apressou-se em acordá-los, pois precisava ir ao jogo do galo em Belo Horizonte. Eles conversaram um pouco antes de partir. Comentaram sobre o dia anterior, mas não estavam tão empolgados. Agora, faltava mais uma longa semana para um novo reencontro.
Felipe Izar
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