terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Escolhemos o êxtase como estado emocional. Escolhemos o amor como nutriente. Escolhemos a tecnologia como vicio. Escolhemos a música como religião. Escolhemos o conhecimento como moeda. E não escolhemos nada com política. Escolhemos a utopia como sociedade, ainda que saibamos que nunca acontecerá.Você pode mos odiar.Você pode nos ignorar.Você pode não nos entender.Você pode nem mesmo saber da nossa existência.Nos apenas esperamos que você não se importe em não julgar-nos.Porque nos nunca julgaremos você.Nós não somos criminosos.Nós não somos desiludidos.Nós não somos viciados em drogas.Nós não somos crianças ingênuas.Nós somos uma massa, uma aldeia tribal global que transcende as leis feitas pelo homem, a física, a geografia e o próprio tempo.Nós somos uma Massa. A Massa.No principio fomos tragados pelo som vindo de longe, trovejando, abafado, ecoando uma batida comparada com o coração de uma mãe acalmando uma criança em seu útero de concreto, metal e fios elétricos.Nós fomos sugados de volta pra dentro deste útero, e lá dentro, no seu calor, na sua umidade e escuridão nós chegamos a aceitar o fato de que somos todos iguais não apenas perante a escuridão e para nos mesmos mas perante essa mesma música batendo e nos passando através de nossas almas: nós somos todos iguais em algum lugar próximo a 35hz nós podemos sentir uma mão alheia em nossas costas.Empurrando-nos pra frente, nos forçando a fortalecer nossas mentes, nossos corpos e nossos espíritos nos levando a virar para a pessoa do nosso lado e juntar as mãos. Leva-las pra cima dividindo a incontrolável alegria que nós sentimos pela desta bolha mágica que pode, por uma noite, proteger-nos dos horrores, atrocidades e poluição do mundo exterior.E foi nesse exato instante, com essas percepções iniciativas, que cada um de realmente nasceu. E nós continuamos a espremer nossos corpos em clubes, fazendas ou galpões que foram abençoados... nós trazemos vida para esses lugares por uma noite e um dia.Vida forte, latente, vibrante em sua forma mais pura, mais intensa e mais hedonista nesses espaços temporários. Nós buscamos nos livrar do fardo da incerteza pelo futuro que vocês não foram capazes de estabilizar pra nós. Nós buscamos ignorar nossas inibições, e livra-nos das algemas e restrições que vocês colocaram em nós para a paz das tuas próprias mentes.Nós buscamos reescrever a programação em que vocês tentaram nos doutrinar desde o minuto em que nos nascemos. Programação que nos diz para odiar, nos diz pra julgar, nos diz para nos enfiarmos dentro do ninho de pombo mais próximo e conveniente possível. Programação que até mesmo nos diz para subir escadas por vocês, pular através de aros, correr em labirintos e em rodas de hamsters. Programação que nos diz para comer da brilhante colher de prata com a qual vocês tentam nos alimentar ao invés de nos nutrir com nossas próprias mãos tão capazes. Programação que nos diz para fecharmos nossas mentes, ao invés de abri-las. Até que o sol nasça para queimar nossos olhos ao revelar a realidade distorcida de um mundo que vocês criaram para nos. É preciso coragem para fazer aquilo que se deseja. Outras pessoas tem um monte de planos para você.Dançamos vigorosamente com nossos irmãos e irmãs em celebração da nossa cultura e dos valores nos quais nós acreditamos:Paz, Amor, Liberdade, Tolerância, Unidade, Harmonia, Expressão, Responsabilidade e Respeito.Nós escolhemos a ignorância com nosso inimigo. Nós escolhemos a informação com nossa arma. Nós escolhemos o crime de burlar e desafiar quaisquer leis que vocês criem para nos impedir de celebrar a nossa existência.Mas saiba que enquanto você pode acabar com qualquer festa. Em qualquer noite. Em qualquer cidade. Em qualquer pais ou continente deste lindo planeta, você nunca poderá acabar com a festa inteira. Você não tem acesso a esse controle. Não importa o que você pense. A musica nunca vai parar. A batida do coração nunca vai desaparecer. A festa nunca vai acabar.

sei que o blog serve pra textos nossos..... mas esse manifesto da trance music (trance é musica??) é mto fino....... é meio q um manisfesto da nossa geração

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Uma nova pinta:

Mais uma viagem conquistada pelas lembranças. Após quatro anos retornei ao mesmo lugar. Com ânsia, pelo caminho refleti sobre tudo que nesse, com esse tempo se passou. No passado fui atrás de um certo amor. Na atual viagem, atrás de qualquer tipo de amor. E acima de todas as loucuras que com ela fizeram pela minha cabeça passear, o desejo de resgatar. Sim, as coisas positivas que com o tempo deixei que a vida deixasse. Pensei, pensei muito. Sempre penso muito. As vezes consigo silenciar, mas dessa vez o que queria mesmo era extravasar. E resgatar pedaços perdidos da identidade. Procurei em minhas lembranças cada um dos passos e suspiros antigos. Tentei encarar. Encarei. E vi como atitudes marcam, mas os sentidos com o tempo se esvaem. Consegui engolir tudo o que recebia a todos os momentos sem mastigar. E quando fui digerir cai na cama. Se passaram muitas coisas, e por menores que fossem elas meu cérebro era capaz de destrinchá-las. No começo da estada estava na ânsia por encontrar. Reencontrar o meu eu que por ali havia estado. Fui interrompida. Depois corri atrás daquela menina que antigamente, habitava em mim. E em meio a tudo, todas aquelas pessoas, todas as festas, todos os desejos, todos os barulhos e todo o silencio encontrei algo que aquela menina também encontrou, mas despercebida, sem procurar, não reparou. Encontrei novos fatos, novos sons, novos amigos, nova paixão, nova atração, novos momentos. Ela também havia encontrado, mas sem dar muito ouvidos a atenção. Procurando em tudo o que se passou ganhei uma experiência proposital de vida. E com a alma aberta e desprevenida, poderia ser mais surpreendida e trazer mais coisas naturais para a frente da vida. Como o que em meu braço surgiu, uma nova pinta. Mas acima de tudo encontrei o sentido do tempo que passou. Que o ritmo dos passos estão desvirtuados ao tempo que foge. Sobrevivi. Que eles só podem ser dados no tempo que corre. Vi com os mesmos olhos verdes com que enxergava o seu redor, aquela menina. Mas por outras janelas de percepção, fui ver que tudo é progressivo. Toda nova paixão. E que o tempo em toda sua razão, se resume em transformação.

(Kel Mello).

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O sonho escondido

10 horas da manhã e o banco já estava cheio. As pessoas estavam mal humoradas, ora protestando em silêncio por um atendimento rápido, ora incrédulas ao protesto. João, um dos funcionários do banco, estava atendendo no caixa, onde os clientes abrem e fecham suas contas. As mãos habilidosas, sempre em busca do limite da velocidade, às vezes se embaralhavam nas teclas do computador. A pressão era muito grande e por isso ele evitava olhar para o rosto das pessoas. Talvez assim ele ficasse menos nervoso.
- Me empresta sua identidade, por favor, disse João.
O cliente apenas murmurou e entregou o documento.
- O senhor é solteiro?
- hunhum.
- Você quer cartão de crédito?
- Ah! Pode ser!
- E cheque especial?
- Com esses juros absurdos! De jeito nenhum!
- Tudo bem, senhor. Daqui a vinte dias o cartão chega a sua casa.
-Fazer o que, ne? Obrigado.
Assim João trabalhou durante toda a manhã. Independentemente do humor dos clientes as respostas eram sempre as mesmas. E ele recebia aquilo como se fosse um elogio. “O cliente está em primeiro lugar”. João respeitava essa frase com muito compromisso.
Subitamente ele olhou o relógio e estava na hora do almoço. O alívio confortou seu corpo, mas ele sabia que era por pouco tempo. A marmita fria foi requentada em um microondas no fundo de sua agência, pois não havia tempo de sair para comer; o período de descanso era de no máximo 15 minutos. João engoliu a comida, foi ao banheiro e logo voltou para o seu posto. Respirou fundo e com o rosto alegre continuou o trabalho.
- Tudo bem, senhor?, disse João.
- Tudo péssimo!, retrucou o homem.
- O que aconteceu?
- Tem essa taxa aqui que eu não sei o que é.
- Deixe-me ver. Senhor, essa tarifa é a CPMF, ela é obrigatória, o banco não pode resolver isso.
- Mas não é possível! Isso é um absurdo!
- Eu também acho, senhor. Mas o banco não pode fazer nada, o sistema não permite.
- Então, eu quero cancelar minha conta!
- Senhor, mas nós temos várias vantagens...
- Não quero saber, quero cancelar a conta!
- Tudo bem, eu vou ver o que posso fazer.
João pediu para o cliente aguardar e depois de alguns minutos voltou.
- Senhor, o gerente fez uma promoção especial. Durante três meses você pode comprar no cartão de crédito sem os juros aqui do banco.
- Hum, pelo menos isso! Obrigado.
Quatro da tarde e estava quase na hora de João terminar seu expediente. O banco ainda estava cheio e talvez ele passasse um pouco do tempo. Seu raciocínio já estava confuso devido ao cansaço. Uma mão massageava a outra para diminuir a tensão de tanto bater nas teclas. Ele já não agüentava aquilo, eram muitos anos de trabalho. Sua promoção no banco estava para sair, mas João não se conformava com a demora para subir de posto. O motivo de sua permanência era pela pressão da mulher, que alegava se preocupar com a tranqüilidade dos filhos. Além disso, João sempre ouvira da família que o mundo não estava fácil, que era preciso ter um emprego estável. Naquele fim de tarde, isso tudo passava por sua cabeça e, como sempre, em um intervalo pequeno de tempo.
De súbito, um homem mais velho sentou a sua frente e o cumprimentou. João ficou um pouco assustado, pela primeira vez alguém fora simpático e estava com um rosto acolhedor.
- Tudo bem, senhor?
- Eu estou ótimo, mas você parece cansado.
- É, senhor. O dia inteiro atrás dessa máquina não é moleza.
- Ah, deve ser extenuante mesmo. Mas então, por que você não sai de trás dela?
- Bem que eu queria, sou formado em jornalismo e até hoje não consegui realizar meu sonho. Queria ser um escritor, trabalhar em uma redação de jornal, em uma revista.
- Pois então vá rápido, nesse ritmo nem vai ter chance de sonhar de verdade. A velocidade dos seus dedos aqui apenas o leva para o mesmo lugar.
João parou de teclar como se estivesse estragado; era como o despertar de sua parte humana, escondida atrás da máquina de escrever dados.
- Pois então, senhor, qual é esse sonho?, indagou João, atônito.
- Ah, é um que chega tarde. Eu espero que você esteja preparado, ao invés de se arrepender.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Que falta que esses danadinhos fazem

Tem gente que acha que pode sair assim da vida da gente e demorar três meses pra voltar.. tem gente que acha que pode demorar até um ano.. e pior ainda quando o desaparecimento se dá por volta do natal, ano novo e carnaval.
Queria ser tipo um Todo Poderoso pra teletransportar todo mundo pra perto quando minha saudade ficasse insuportável. Quero todos eles aqui e agora. Pronto.
Quero também aqueles que estão aqui mas que não to vendo tanto.
Sou egoísta mesmo. Uma vez me deram uma turma de amigos maravilhosa e de repente fica tudo esquisito. Cadê todo mundo?
Agradeceria muito se alguns deles pudessem aparecer por aki e deixar um recado pra mim dizendo que tudo vai ser como antes.
Por favor.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Um breve relato

Senhora Ivone, representante do Diretor Acadêmico;
Demais Autoridades e Professores aqui presentes;
Senhores Pais e Convidados;
Caros colegas:
Boa noite.
Fazer este discurso não foi fácil. Na verdade ele foi criado com aquele cachorro preto do Henfil das aulas da Glória correndo atrás de mim. Para quem não sabe, o tal cachorro preto é aquela urgência, a necessidade, o prazo estourando, o último dia. E publicitário é bom nisso! Você pode estar até doente, com o joelho arrebentado, mas se vem um cachorro preto, um doberman atrás de você, ninguém hesita. Todo mundo corre e, se preciso, até pula n'água sem saber nadar.
Bom, um discurso de formatura costuma se desenrolar como uma comédia, onde os formandos se sentem importantes e o orador sobe ao palco, declamando velhos-lugares comuns, repetindo elogios clássicos e se retira satisfeito. Todos aplaudem, todos sorriem. Tudo ocorre conforme as conveniências; afinal, formatura é formatura. Geralmente a platéia se comporta bem e não costuma atirar tomates no orador. Nesse quesito, eu espero que dessa vez não seja diferente.
E como oradora de uma turma de Publicidade e Propaganda acho que cairia bem começar vendendo o nosso peixe. Somos uma turma atípica e a diversidade é notável... Tem gente do Pará, do interior de Minas e até de Cabo Verde como vocês já perceberam. Uns migraram de outras turmas... Outros nem tinham uma turma certa e estão hoje aqui.. Tem ela que é 8 ou 80 e ele que usa all star. Ainda tem aquela querendo engravidar e aquela que já quis casar. Uma de cabelo colorido, outra que por culpa de um chiclete tem o cabelo curtinho e outro de apelido Cabelinho. Tem até gente fazendo aniversário hoje. Pessoas que entraram na Faculdade com muitos ideais, vontades muitas vezes utópicas, mas, sobretudo, sinceras. Uma multiplicidade. Uma mistura gostosa, que agora parte em busca de outras rodas.
E o tempo rodou num instante.

Somos publicitários. Transformamos a realidade. Desarranjamos. Revelamos. Infiltramo-nos nas noções preconcebidas e nos divertimos inventando novos caminhos. Provocamos e mudamos pontos de vista. Talvez sejamos fotógrafos, cineastas, produtores, artistas, designers, professores, cantores e porque não dizer médicos, hein Mudado?
Eh, e quem disse que a vida é fácil?
Fazer publicidade parecia simples assim. O curso feito para você. Uma carga horária viável, com direito a escapadinhas que refrescavam até pensamento. Começávamos o dia com uma energia que dá gosto e terminávamos quase sempre com uma boa idéia. Parecíamos viver sem fronteiras. Pois é; a primeira impressão nem sempre é a que fica. E na pele de um aspira aprendemos e sofremos muito com o projeto experimental e as intermináveis regras da ABNT. A vontade de colocá-los na conta do papa era grande.
Mas como missão dada é missão cumprida, aqui estamos. Formados. E essa pica agora não é mais nossa.
Daqui pra frente não teremos mais a vida dividida em semestres e pegar uma especial significará desemprego. Um trabalho mal feito e logo dirão "pede pra sair; pede pra sair". E digo mais: se num passado não muito distante alguns fanfarrões que diziam ser publicitários agiram com mal caratismo e desonestidade, a nossa obrigação é não deixar que o conceito de Publicidade; em latim, Publicus; em francês, Publicité; em alemão, Werbung... Os senhores estão anotando?
Então eu vou retomar o raciocínio. A nossa obrigação é não deixar que o conceito de Publicidade; em latim... (olhar para a platéia) brincadeira... É não permitir que a nossa profissão seja vista como desonesta... É sermos profissionais éticos e competentes. E isso os fanfarrões.. NUNCA SERÃO.
Semente, futuro, iniciativa, sonhos, coragem, imprevisibilidade, questionamento, refrões, mudança, criatividade, talento, produtividade, experimentação, risadas, caminhos. Histórias. De Maciotas a Cachorradas temos realmente muito para contar e fico com a certeza de que serão boas as lembranças e quem sabe, no meio delas, haja uma ou outra coisa que tenhamos aprendido sobre Publicidade e Propaganda.
E que venha o mundo!!
Obrigada.

Janaína Salgado
Dezembro, 2007.
Para quem não viu, nem ouviu, este foi o meu discurso de formatura apresentado na colação de grau. A oradora aqui queria muito que vcs estivessem lá para presenciar os 5 minutos de glória no palco!! haha. Mas tudo bem.
E agora José? A menina formou.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

na dúvida

alguém tem o telefone do ivan da van?
alguém ainda nao confirmou presença na minha formatura?
alguém quer ir pra diamantina comigo?
alguém tem casa pra ficar lá?
alguém, responda, por favor.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Dor de cotovelo

O que eu faço para te ter?, perguntou o menino...
Eu já fui burro e já fui inteligente,
já fui grosso e romântico,
já fui mentiroso e sincero,
já me distanciei e já fiquei no seu pé,
já te impressionei e já deixei de te impressionar,
já toquei uma música só pra ouvir você cantar,
já fiz sexo por prazer e já fiz amor,
já ri da sua cara e já chorei por não vê-la mais,
nem quis sair de casa pra te ver e já rodei o mundo pra te encontrar,
já te olhei com desprezo e depois com devoção,
já te taxei de vadia à mais pura das criaturas,
tão lépida que já ironizei e depois vi a felicidade;
me diz então, minha linda: O que mais eu faço pra te ter?

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

À flor da pele

Sempre gostei de música. Para mim, escutar uma composição nunca foi insignificante; pelo contrário, sempre elevou meus sentimentos. Em 11 de outubro de 2007 minha sensibilidade estava ainda maior. Neste dia, eu viajei de carro para o Rio de Janeiro com mais quatro amigos, e no caminho a expectativa para as aventuras na cidade maravilhosa me deixara num expressivo estado de nervos. Nós ouvimos música durante quase toda viagem, e meus pensamentos “viajaram” sem noção de tempo e espaço; e o meu corpo respondeu aos efeitos das diversas composições que escutei.
Sim. Vários estilos musicais, com harmonias e melodias diferentes me deixaram atônito, alegre, furioso, elétrico, amargo - entre outros - durante as seis horas de Belo Horizonte até o Rio. O motivo de tantos sentimentos deve-se a uma inovação tecnológica chamada mp3. Com este recurso, que diminui os bits de um arquivo e proporciona um espaço maior para a gravação de áudio, eu coloquei 100 canções de várias bandas em apenas um CD. Além disso, mudei a configuração do som do carro para o modo shuffle, que faz as músicas não serem ouvidas em uma seqüência cronológica – depois da música um não temos mais controle, o som escolhe um número aleatoriamente -; e assim a próxima canção era sempre um mistério. Eu quase enlouqueci. Não dava para saber o que eu iria sentir.
Na primeira parte da viagem o CD nos ofereceu três músicas de um grupo de Heavy Metal, o Iron Maiden. Alguns amigos reclamaram.
- Que barulheira! , disse a única mulher que estava no carro.
- Troca de CD! , completou um outro amigo.
Mas esta banda marcou minha infância, e logo tive a sensação de nostalgia. Lembrei-me de quando eu deixava o cabelo grande, para me parecer com os integrantes do Iron e balançar a cabeça enquanto eu tocava guitarra. Ri sozinho, jurei que eu não faria aquilo de novo. Depois, voltei ao calor da viagem e o estilo agressivo da banda me dominou. O som das guitarras distorcidas, da bateria com a batida do bumbo socando o peito, do baixo com um toque cavalado e do vocal rouco me deixaram com raiva, com vontade de gritar. Desabafei. Coloquei a cabeça para fora da janela do carro e exigi o máximo de minhas cordas vocais. O som que saiu de minha boca se perdeu pelo ar e eu voltei por completo ao veículo com a sensação de alívio.
Após as músicas iniciais, o mp3 e o modo shuffle evidenciaram suas ações. O som pesado do Iron transformou-se na melancolia do Los Hermanos; era a música “Sentimental”, de Rodrigo Amarante. Uma canção lenta, com acordes de guitarra que lembram a bossa-nova, e um pouquinho de distorção no som dos instrumentos para transparecer a mistura de Rock-Bossa. Nessa hora eu pensei em ex-namoradas, futuros namoros, o jeito das mulheres que eu poderia me encantar na cidade maravilhosa. Era uma combinação de momentos dramáticos e de alegria. Depois ainda me arrepiei com o comentário sobre a música de um amigo que estava no carro.
- “Sentimental” ele fez para a filha dele, e não para uma mulher como todos pensam. A frase “eu só aceito a condição de ter você só pra mim” é na verdade o ciúme do pai com o namoro de sua filhinha.
O CD continuou seu ciclo indecifrável e o Rock and Roll voltou à tona. Só que agora em seu estilo mais fiel: era a vez de Jimi Hendrix entrar em nosso corpo. O som da guitarra cortante, com solos nervosos e improvisados, e a bateria que raramente repete uma batida, traziam uma vontade de rasgar a pele, abrir o peito, “colocar a cara” para defender uma causa. Eu encontrava-me num Woodstock particular e atual. Protestava contra o governo; contra a corrupção no senado; contra os discursos eloqüentes dos políticos, mas que não passam de falsos; e contra as iniqüidades com o povo de classe social mais baixa. O protesto era sem muito aprofundamento, pois minha fúria era mais forte do que a organização das idéias.
Como mágica, da década de 1960 de Hendrix eu passei para a de 1990. O CD começou a tocar o som do Incubus, uma banda de rock mais moderna, que tem cheiro de tecnologia. Os integrantes do grupo usam muito o recurso eletrônico, mas sem abandonar as distorções e a pegada forte. Era como se meu organismo estivesse sendo digitalizado, e ao mesmo tempo o som agressivo do rock arrancava os fios da rede que se formava. Uma briga intensa entre a inovação tecnológica e o velho som de qualidade. Os meus amigos gostam deste estilo. Iam, inclusive, num show desta banda no Rio e estavam empolgados.
- Incubus é muito bom. Inovou sem deixar de lado as raízes do rock and roll, observou um deles.
- Eu vou pirar neste show, garantiu a menina.
Pirado já estava eu, de tantos sentimentos de uma só vez. Quando o CD começou a tocar o som de Steve Vai, então, eu tive que dar um tempo. Ele é um guitarrista que imprime várias notas por segundo, virtuoso, lenda da guitarra. Tão pouco é possível entender as notas de tão rápidas. Meu estômago ia embrulhandoembrulhandoembrulhandoembrulhandoembrulahando... Desliguei o som e vi que estávamos chegando ao Rio. Veio um sinal de conforto, um silêncio que não incomoda. A intimidade e a confiança eram marcantes entre aqueles amigos e eu sempre achei valioso preservar isso. Mas logo pensei que podia perdê-los; todos um dia iriam trabalhar, e talvez mudar de cidade, estado, país. Agora, eram a tristeza e a felicidade que me confundiam; e o conforto fora embora. Como música, aquele silêncio me trazia sentimentos à flor da pele.

Felipe Izar

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

100 dias que mudaram a música

Achei no blog da Luiza Voll que por sinal é mto, mto bom.
Eu não li tooodos os dias, mas tem uns que realmente mudaram a música. Vale a pena ver.

Link: 100 Days That Changed Music

Ah, ta em inglês.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Fã de futebol

Ronaldo Pelota tinha 22 anos e morava em Belo Horizonte. Ex-estudante de jornalismo, ele dizia que a única razão de ter escolhido este curso era para ficar ainda mais perto de sua maior paixão: o futebol. Pelota ia a todos os jogos do Clube Atlético Mineiro, time que até hoje ele se refere como “O Glorioso”. Não importava se sua mãe, seu pai, ou sua namorada reclamassem. Jogo era jogo e ele, como atleticano fanático, tinha que comparecer ao estádio do Mineirão, em todas as partidas do galo.
Mas nesta época – no ano de 2007 – ocorreu algo atípico, bem mais sério do que todo o seu envolvimento com o futebol até então: O Brasil fora nomeado o país sede da copa do mundo de 2014. Para Ronaldo Pelota, essa conquista não era apenas para ele comemorar; era para programar a sua participação no maior evento de futebol do planeta. E ele sonhou...
Sonhou com os jogos no Mineirão, no Maracanã, na Ilha do Retiro. Na angústia de um gol que não sai; na vibração de uma jogada de efeito. Pelota também sempre se encantou com a festa da torcida, e imaginou as bandeiras verde-e-amarelas dialogando com o apoio das mãos de cada cidadão brasileiro. Não tinha jeito. Aquela festa tinha que fazer parte da vida deste homem.
Empolgado com o sonho, quando Ronaldo Pelota despertou ele não se conteve. Era hora de começar a se preparar para a copa do mundo. Em seis anos e alguns meses tinha que dar tempo.
Logo pensou em ganhar dinheiro, pois Assistir aos jogos da seleção brasileira por todo o país não seria barato. Então, Pelota abandonou o jornalismo. Ele ouvia das pessoas que era uma profissão de pobre, com um mercado de trabalho saturado, e que até 2014 ele não conseguiria chegar à copa como um jornalista. Ele concordou; apressou-se em fazer vestibular para Direito e começou a graduação em janeiro de 2008. Como este curso exige cinco anos de dedicação – terminaria no fim de 2012 -, para conseguir dinheiro Pelota tinha que sair da universidade com um emprego garantido. Para isso, ele começou a estudar mais do que a profissão determinava. A missão era fazer um concurso no final de sua graduação, que lhe rendesse um salário mensal de, no mínimo, R$5 mil reais, durante todo o ano de 2013.
Porém, não bastava apenas o sucesso profissional. Para ficar com a consciência tranqüila e ser respeitado, Ronaldo Pelota tinha que tentar montar uma família, com uma mulher que quisesse ter no máximo dois filhos. Seria humilhante não ter perspectivas de se casar com 29 anos. No entanto, a mulher tinha que gostar de futebol, ou no mínimo não se importar com a viagem programada. Realmente não era uma tarefa fácil, e por isso exigia tempo. E ele foi a luta...
Uma vez Pelota passou pelas quadras da universidade e viu uma moça jogando futebol com os homens. Forçosamente olhou para as suas pernas e comentou: “Que pernas grossas! Um pouco cabeludas, mas bem definidas”. Fominha de bola, ele entrou na pelada e logo deu um jeito de ser do time de sua musa. Apresentou-se como Ronaldo Matador e fez jogadas excepcionais. Pelota era bom nisso.
Mas a intenção naquele momento era nada a não ser a conquista da mulher perfeita. O “garanhão” Jogava olhares sensuais e tentava conversar com a moça nos intervalos do jogo. Ele queria “mexer com ela” e, depois de muito insistir, conseguir uma resposta sobre um encontro. E teve: “Ronaldão, depois da pelada vamos tomar uma cerva no boteco”!? Pelota tratou de nunca mais encontrar com aquela mulher. O futuro casamento podia esperar mais um pouco.


Dizem que as pessoas não escolhem por quem se apaixonar. Pois Pelota nem podia pensar nesta hipótese, era muito arriscado. Se apaixonar pela pessoa errada seria uma estupidez, a perda de um sonho, de uma vida. Só que ele se esqueceu que o homem é de fato estúpido quando está perto de lindas mulheres. E fraquejou.
Conheceu Ana Luiza Cavalcanti. Mulher de gênio forte, poderosa nas altas camadas sociais, linda; nem pelota sabe como conseguiu arrancar um beijo desta moça. E logo viria a derrocada. Ele descobriu o maior defeito de sua nova namorada: ela não era muito “chegada” ao jogo de futebol. Pelota ficou desolado, não poderia imaginar uma coisa dessas. Nem imaginar que por estar tão apaixonado não poderia abandonar sua amada. O jeito era continuar com o projeto da copa de 2014 e não contar para a sua mulher.
No final do curso de Direito, Pelota ainda namorava com Ana Luisa. Aquele momento seria decisivo em sua vida. Ela estava louca para casar e ter filhos. E agora, com quase 29 anos, ele percebeu que se passasse no concurso ia ter que usar o dinheiro para o casamento, a lua de mel, a nova casa, os futuros filhos. Ele estava perdido. A paixão por Ana Luisa era muito forte. Além disso, a família da moça exigia o casamento, pressionava, ele não poderia fazer a menina de “boba”. E seus pais também pressionavam: “Tem que casar naldinho, a moça é uma menina de família, não desrespeite ela”!
No fim do ano veio a formatura e o resultado do concurso. Ele não tinha dúvidas, iria passar, e passou. Agora o dilema de Pelota era trabalhar o ano inteiro para ir a copa do mundo ou para se casar. O tempo estava passando, a pressão pelo casamento aumentava e Pelota não achava a resposta. Ele pensava: “Ela não vai querer passar a lua de mel no Maracanã. O que eu faço”? Cada vez mais a solução fugia de seus pensamentos. O sonho estava se extinguindo...


No final de 2013, teve uma festa de fim de ano da família. Todos esperavam o pedido de casamento. Pelota estava nervoso, ainda não sabia o que fazer. Ele tinha que ser forte, Copa do Mundo não acontecia todo ano no Brasil.
Até que Chegou a hora do jantar. Pelota estava em frente à Ana Luisa, e ele tinha a sensação de que todos o olhavam a espera do pedido. Foi quando Ana perguntou: “Amor, você não tem nada a dizer”? Pelota foi seco, não poderia dar chance para o perdão e nem para conversas: “Não”! Ele levantou da mesa e saiu sem dar explicações.

O ano de 2014 estava muito agitado. Afinal, era a segunda copa do mundo a ser realizada no Brasil. Pelota já havia ido a todos os jogos da seleção; Só faltava o último, a grande final, que seria no Maracanã. Esse jogo era histórico; o Brasil havia perdido aquele clássico de 1950 para o Uruguai e agora teria a revanche. É isso mesmo. Os uruguaios estavam nas finais. Houve muita especulação sobre um esquema que colocou os dois times naquela situação, ainda mais que o Uruguai já não tinha “aquele” grande elenco. E ele viveu...
Viveu a angústia de um gol que não sai; a vibração de uma jogada de efeito; a festa da torcida; as bandeiras verde-e-amarelas dialogando com o apoio das mãos de cada cidadão brasileiro. Pois não deu outra. Brasil campeão, e a ferida de 50 foi cicatrizada.
Muita comemoração marcou aquele dia no Rio de Janeiro. Pelota, por ter ido a todos os jogos, ganhou o direito de comemorar a conquista junto com os jogadores. Cumprimentou, tirou fotos, abraçou, até “bateu uma bola”. Quando de repente viu Ana Luisa. A sua ex-namorada estava nos braços de um dos jogadores, dando beijos cada vez mais empolgantes. Pelota não se conteve e perguntou: “Ana, você me disse que não gostava de futebol”! Ela não hesitou: “Não lhe contei que você me conquistou em uma das peladas que eu assistia na universidade”?

Felipe Izar