Ronaldo Pelota tinha 22 anos e morava em Belo Horizonte. Ex-estudante de jornalismo, ele dizia que a única razão de ter escolhido este curso era para ficar ainda mais perto de sua maior paixão: o futebol. Pelota ia a todos os jogos do Clube Atlético Mineiro, time que até hoje ele se refere como “O Glorioso”. Não importava se sua mãe, seu pai, ou sua namorada reclamassem. Jogo era jogo e ele, como atleticano fanático, tinha que comparecer ao estádio do Mineirão, em todas as partidas do galo.
Mas nesta época – no ano de 2007 – ocorreu algo atípico, bem mais sério do que todo o seu envolvimento com o futebol até então: O Brasil fora nomeado o país sede da copa do mundo de 2014. Para Ronaldo Pelota, essa conquista não era apenas para ele comemorar; era para programar a sua participação no maior evento de futebol do planeta. E ele sonhou...
Sonhou com os jogos no Mineirão, no Maracanã, na Ilha do Retiro. Na angústia de um gol que não sai; na vibração de uma jogada de efeito. Pelota também sempre se encantou com a festa da torcida, e imaginou as bandeiras verde-e-amarelas dialogando com o apoio das mãos de cada cidadão brasileiro. Não tinha jeito. Aquela festa tinha que fazer parte da vida deste homem.
Empolgado com o sonho, quando Ronaldo Pelota despertou ele não se conteve. Era hora de começar a se preparar para a copa do mundo. Em seis anos e alguns meses tinha que dar tempo.
Logo pensou em ganhar dinheiro, pois Assistir aos jogos da seleção brasileira por todo o país não seria barato. Então, Pelota abandonou o jornalismo. Ele ouvia das pessoas que era uma profissão de pobre, com um mercado de trabalho saturado, e que até 2014 ele não conseguiria chegar à copa como um jornalista. Ele concordou; apressou-se em fazer vestibular para Direito e começou a graduação em janeiro de 2008. Como este curso exige cinco anos de dedicação – terminaria no fim de 2012 -, para conseguir dinheiro Pelota tinha que sair da universidade com um emprego garantido. Para isso, ele começou a estudar mais do que a profissão determinava. A missão era fazer um concurso no final de sua graduação, que lhe rendesse um salário mensal de, no mínimo, R$5 mil reais, durante todo o ano de 2013.
Porém, não bastava apenas o sucesso profissional. Para ficar com a consciência tranqüila e ser respeitado, Ronaldo Pelota tinha que tentar montar uma família, com uma mulher que quisesse ter no máximo dois filhos. Seria humilhante não ter perspectivas de se casar com 29 anos. No entanto, a mulher tinha que gostar de futebol, ou no mínimo não se importar com a viagem programada. Realmente não era uma tarefa fácil, e por isso exigia tempo. E ele foi a luta...
Uma vez Pelota passou pelas quadras da universidade e viu uma moça jogando futebol com os homens. Forçosamente olhou para as suas pernas e comentou: “Que pernas grossas! Um pouco cabeludas, mas bem definidas”. Fominha de bola, ele entrou na pelada e logo deu um jeito de ser do time de sua musa. Apresentou-se como Ronaldo Matador e fez jogadas excepcionais. Pelota era bom nisso.
Mas a intenção naquele momento era nada a não ser a conquista da mulher perfeita. O “garanhão” Jogava olhares sensuais e tentava conversar com a moça nos intervalos do jogo. Ele queria “mexer com ela” e, depois de muito insistir, conseguir uma resposta sobre um encontro. E teve: “Ronaldão, depois da pelada vamos tomar uma cerva no boteco”!? Pelota tratou de nunca mais encontrar com aquela mulher. O futuro casamento podia esperar mais um pouco.
Dizem que as pessoas não escolhem por quem se apaixonar. Pois Pelota nem podia pensar nesta hipótese, era muito arriscado. Se apaixonar pela pessoa errada seria uma estupidez, a perda de um sonho, de uma vida. Só que ele se esqueceu que o homem é de fato estúpido quando está perto de lindas mulheres. E fraquejou.
Conheceu Ana Luiza Cavalcanti. Mulher de gênio forte, poderosa nas altas camadas sociais, linda; nem pelota sabe como conseguiu arrancar um beijo desta moça. E logo viria a derrocada. Ele descobriu o maior defeito de sua nova namorada: ela não era muito “chegada” ao jogo de futebol. Pelota ficou desolado, não poderia imaginar uma coisa dessas. Nem imaginar que por estar tão apaixonado não poderia abandonar sua amada. O jeito era continuar com o projeto da copa de 2014 e não contar para a sua mulher.
No final do curso de Direito, Pelota ainda namorava com Ana Luisa. Aquele momento seria decisivo em sua vida. Ela estava louca para casar e ter filhos. E agora, com quase 29 anos, ele percebeu que se passasse no concurso ia ter que usar o dinheiro para o casamento, a lua de mel, a nova casa, os futuros filhos. Ele estava perdido. A paixão por Ana Luisa era muito forte. Além disso, a família da moça exigia o casamento, pressionava, ele não poderia fazer a menina de “boba”. E seus pais também pressionavam: “Tem que casar naldinho, a moça é uma menina de família, não desrespeite ela”!
No fim do ano veio a formatura e o resultado do concurso. Ele não tinha dúvidas, iria passar, e passou. Agora o dilema de Pelota era trabalhar o ano inteiro para ir a copa do mundo ou para se casar. O tempo estava passando, a pressão pelo casamento aumentava e Pelota não achava a resposta. Ele pensava: “Ela não vai querer passar a lua de mel no Maracanã. O que eu faço”? Cada vez mais a solução fugia de seus pensamentos. O sonho estava se extinguindo...
No final de 2013, teve uma festa de fim de ano da família. Todos esperavam o pedido de casamento. Pelota estava nervoso, ainda não sabia o que fazer. Ele tinha que ser forte, Copa do Mundo não acontecia todo ano no Brasil.
Até que Chegou a hora do jantar. Pelota estava em frente à Ana Luisa, e ele tinha a sensação de que todos o olhavam a espera do pedido. Foi quando Ana perguntou: “Amor, você não tem nada a dizer”? Pelota foi seco, não poderia dar chance para o perdão e nem para conversas: “Não”! Ele levantou da mesa e saiu sem dar explicações.
O ano de 2014 estava muito agitado. Afinal, era a segunda copa do mundo a ser realizada no Brasil. Pelota já havia ido a todos os jogos da seleção; Só faltava o último, a grande final, que seria no Maracanã. Esse jogo era histórico; o Brasil havia perdido aquele clássico de 1950 para o Uruguai e agora teria a revanche. É isso mesmo. Os uruguaios estavam nas finais. Houve muita especulação sobre um esquema que colocou os dois times naquela situação, ainda mais que o Uruguai já não tinha “aquele” grande elenco. E ele viveu...
Viveu a angústia de um gol que não sai; a vibração de uma jogada de efeito; a festa da torcida; as bandeiras verde-e-amarelas dialogando com o apoio das mãos de cada cidadão brasileiro. Pois não deu outra. Brasil campeão, e a ferida de 50 foi cicatrizada.
Muita comemoração marcou aquele dia no Rio de Janeiro. Pelota, por ter ido a todos os jogos, ganhou o direito de comemorar a conquista junto com os jogadores. Cumprimentou, tirou fotos, abraçou, até “bateu uma bola”. Quando de repente viu Ana Luisa. A sua ex-namorada estava nos braços de um dos jogadores, dando beijos cada vez mais empolgantes. Pelota não se conteve e perguntou: “Ana, você me disse que não gostava de futebol”! Ela não hesitou: “Não lhe contei que você me conquistou em uma das peladas que eu assistia na universidade”?
Felipe Izar
terça-feira, 6 de novembro de 2007
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