quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O sonho escondido

10 horas da manhã e o banco já estava cheio. As pessoas estavam mal humoradas, ora protestando em silêncio por um atendimento rápido, ora incrédulas ao protesto. João, um dos funcionários do banco, estava atendendo no caixa, onde os clientes abrem e fecham suas contas. As mãos habilidosas, sempre em busca do limite da velocidade, às vezes se embaralhavam nas teclas do computador. A pressão era muito grande e por isso ele evitava olhar para o rosto das pessoas. Talvez assim ele ficasse menos nervoso.
- Me empresta sua identidade, por favor, disse João.
O cliente apenas murmurou e entregou o documento.
- O senhor é solteiro?
- hunhum.
- Você quer cartão de crédito?
- Ah! Pode ser!
- E cheque especial?
- Com esses juros absurdos! De jeito nenhum!
- Tudo bem, senhor. Daqui a vinte dias o cartão chega a sua casa.
-Fazer o que, ne? Obrigado.
Assim João trabalhou durante toda a manhã. Independentemente do humor dos clientes as respostas eram sempre as mesmas. E ele recebia aquilo como se fosse um elogio. “O cliente está em primeiro lugar”. João respeitava essa frase com muito compromisso.
Subitamente ele olhou o relógio e estava na hora do almoço. O alívio confortou seu corpo, mas ele sabia que era por pouco tempo. A marmita fria foi requentada em um microondas no fundo de sua agência, pois não havia tempo de sair para comer; o período de descanso era de no máximo 15 minutos. João engoliu a comida, foi ao banheiro e logo voltou para o seu posto. Respirou fundo e com o rosto alegre continuou o trabalho.
- Tudo bem, senhor?, disse João.
- Tudo péssimo!, retrucou o homem.
- O que aconteceu?
- Tem essa taxa aqui que eu não sei o que é.
- Deixe-me ver. Senhor, essa tarifa é a CPMF, ela é obrigatória, o banco não pode resolver isso.
- Mas não é possível! Isso é um absurdo!
- Eu também acho, senhor. Mas o banco não pode fazer nada, o sistema não permite.
- Então, eu quero cancelar minha conta!
- Senhor, mas nós temos várias vantagens...
- Não quero saber, quero cancelar a conta!
- Tudo bem, eu vou ver o que posso fazer.
João pediu para o cliente aguardar e depois de alguns minutos voltou.
- Senhor, o gerente fez uma promoção especial. Durante três meses você pode comprar no cartão de crédito sem os juros aqui do banco.
- Hum, pelo menos isso! Obrigado.
Quatro da tarde e estava quase na hora de João terminar seu expediente. O banco ainda estava cheio e talvez ele passasse um pouco do tempo. Seu raciocínio já estava confuso devido ao cansaço. Uma mão massageava a outra para diminuir a tensão de tanto bater nas teclas. Ele já não agüentava aquilo, eram muitos anos de trabalho. Sua promoção no banco estava para sair, mas João não se conformava com a demora para subir de posto. O motivo de sua permanência era pela pressão da mulher, que alegava se preocupar com a tranqüilidade dos filhos. Além disso, João sempre ouvira da família que o mundo não estava fácil, que era preciso ter um emprego estável. Naquele fim de tarde, isso tudo passava por sua cabeça e, como sempre, em um intervalo pequeno de tempo.
De súbito, um homem mais velho sentou a sua frente e o cumprimentou. João ficou um pouco assustado, pela primeira vez alguém fora simpático e estava com um rosto acolhedor.
- Tudo bem, senhor?
- Eu estou ótimo, mas você parece cansado.
- É, senhor. O dia inteiro atrás dessa máquina não é moleza.
- Ah, deve ser extenuante mesmo. Mas então, por que você não sai de trás dela?
- Bem que eu queria, sou formado em jornalismo e até hoje não consegui realizar meu sonho. Queria ser um escritor, trabalhar em uma redação de jornal, em uma revista.
- Pois então vá rápido, nesse ritmo nem vai ter chance de sonhar de verdade. A velocidade dos seus dedos aqui apenas o leva para o mesmo lugar.
João parou de teclar como se estivesse estragado; era como o despertar de sua parte humana, escondida atrás da máquina de escrever dados.
- Pois então, senhor, qual é esse sonho?, indagou João, atônito.
- Ah, é um que chega tarde. Eu espero que você esteja preparado, ao invés de se arrepender.

11 comentários:

Unknown disse...

Fodástico! Viva a patota!

Anônimo disse...

Acho q eu conheco a inspiracao dessa cronica hehe. Bem escrito, o desenrolar da historia ficou bem legal, gostei da primeira analise do homem sobre continuar no mesmo lugar mas achei o final um pouco cliche. achei q vc tinha cansado de escreve... tem tempo q vc naum posta nada... ferias e osso ne? Saudade doce pra carai velho, agora para d importunar a galera ai to sabeno q c tah chato pra carai uahuahahu. bracaum brother

Felipe Izar (Pips) disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Felipe Izar (Pips) disse...

Hehe. A inspiração foi boa, ne?
Pois é. Eu mudei o final, olha lá!

Uai. Quem falou que eu to chato? Só estou saindo com o DuDu, leandro e Raquel - Ouro Branco e tal. Só se for um deles, talvez a janaína. Saudade doce também, meu fi. Saudade nmesmo. Grande abraço.

Nina Salgado disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Nina Salgado disse...

gente, tem q depositar o dinheiro do onibus o mais rapido possivel p garantir o lugar. senao ja era.. e agora é 106 conto.
deposita hj, banco do brasil, ag 3610-2 cc 33548-7, bruno frança. Depositando mandar para onibusdiamantina@yahoo.com.br: comprovante, nome, celular e e-mail. Se não tiver comprovante mandar falando como foi o depósito (no que aparece no comprovante do caixa eletrônico serve), dia e hora pra eles identificarem. E falar que é amigo do Mateus (da cachaça João Andante) que ele reservou um cado de lugar. E vai me avisando qm depositou.
Bjos

Julia Fonseca disse...

Black eyed Pipsssssssssssss

Gosostei mto da cronica
Fiquei curiosa para saber o final original... Cliche tb é legal!

Bjao
Mtas saudades!!

Raquel Mello disse...

Ah, eu queria ver o final original tb!Quando li acho que foi do cel do dudu em ob, provavelmente com pouca atencao e pouca lesada!Alem do que cliche eh muito relativo, tem tb o cliche reverso, que eh a quebra do cliche! entao eh muito relativo cliches..(posta as duas!e a gente escolhe o final..rsrs)Bjocas!

Felipe Izar (Pips) disse...

Para a alegria da comunidade patotense, o antigo final é: Viver, meu filho. Viver (em vez de: Ah, é um que chega tarde. Espero que você esteja preparado, ao invéz de se arrepender).

Raquel Mello disse...

Não achei o primeiro clichê, achei simples demais!Preferi o segundo!Bjoss

Anônimo disse...

Ficou maiado