segunda-feira, 12 de novembro de 2007

À flor da pele

Sempre gostei de música. Para mim, escutar uma composição nunca foi insignificante; pelo contrário, sempre elevou meus sentimentos. Em 11 de outubro de 2007 minha sensibilidade estava ainda maior. Neste dia, eu viajei de carro para o Rio de Janeiro com mais quatro amigos, e no caminho a expectativa para as aventuras na cidade maravilhosa me deixara num expressivo estado de nervos. Nós ouvimos música durante quase toda viagem, e meus pensamentos “viajaram” sem noção de tempo e espaço; e o meu corpo respondeu aos efeitos das diversas composições que escutei.
Sim. Vários estilos musicais, com harmonias e melodias diferentes me deixaram atônito, alegre, furioso, elétrico, amargo - entre outros - durante as seis horas de Belo Horizonte até o Rio. O motivo de tantos sentimentos deve-se a uma inovação tecnológica chamada mp3. Com este recurso, que diminui os bits de um arquivo e proporciona um espaço maior para a gravação de áudio, eu coloquei 100 canções de várias bandas em apenas um CD. Além disso, mudei a configuração do som do carro para o modo shuffle, que faz as músicas não serem ouvidas em uma seqüência cronológica – depois da música um não temos mais controle, o som escolhe um número aleatoriamente -; e assim a próxima canção era sempre um mistério. Eu quase enlouqueci. Não dava para saber o que eu iria sentir.
Na primeira parte da viagem o CD nos ofereceu três músicas de um grupo de Heavy Metal, o Iron Maiden. Alguns amigos reclamaram.
- Que barulheira! , disse a única mulher que estava no carro.
- Troca de CD! , completou um outro amigo.
Mas esta banda marcou minha infância, e logo tive a sensação de nostalgia. Lembrei-me de quando eu deixava o cabelo grande, para me parecer com os integrantes do Iron e balançar a cabeça enquanto eu tocava guitarra. Ri sozinho, jurei que eu não faria aquilo de novo. Depois, voltei ao calor da viagem e o estilo agressivo da banda me dominou. O som das guitarras distorcidas, da bateria com a batida do bumbo socando o peito, do baixo com um toque cavalado e do vocal rouco me deixaram com raiva, com vontade de gritar. Desabafei. Coloquei a cabeça para fora da janela do carro e exigi o máximo de minhas cordas vocais. O som que saiu de minha boca se perdeu pelo ar e eu voltei por completo ao veículo com a sensação de alívio.
Após as músicas iniciais, o mp3 e o modo shuffle evidenciaram suas ações. O som pesado do Iron transformou-se na melancolia do Los Hermanos; era a música “Sentimental”, de Rodrigo Amarante. Uma canção lenta, com acordes de guitarra que lembram a bossa-nova, e um pouquinho de distorção no som dos instrumentos para transparecer a mistura de Rock-Bossa. Nessa hora eu pensei em ex-namoradas, futuros namoros, o jeito das mulheres que eu poderia me encantar na cidade maravilhosa. Era uma combinação de momentos dramáticos e de alegria. Depois ainda me arrepiei com o comentário sobre a música de um amigo que estava no carro.
- “Sentimental” ele fez para a filha dele, e não para uma mulher como todos pensam. A frase “eu só aceito a condição de ter você só pra mim” é na verdade o ciúme do pai com o namoro de sua filhinha.
O CD continuou seu ciclo indecifrável e o Rock and Roll voltou à tona. Só que agora em seu estilo mais fiel: era a vez de Jimi Hendrix entrar em nosso corpo. O som da guitarra cortante, com solos nervosos e improvisados, e a bateria que raramente repete uma batida, traziam uma vontade de rasgar a pele, abrir o peito, “colocar a cara” para defender uma causa. Eu encontrava-me num Woodstock particular e atual. Protestava contra o governo; contra a corrupção no senado; contra os discursos eloqüentes dos políticos, mas que não passam de falsos; e contra as iniqüidades com o povo de classe social mais baixa. O protesto era sem muito aprofundamento, pois minha fúria era mais forte do que a organização das idéias.
Como mágica, da década de 1960 de Hendrix eu passei para a de 1990. O CD começou a tocar o som do Incubus, uma banda de rock mais moderna, que tem cheiro de tecnologia. Os integrantes do grupo usam muito o recurso eletrônico, mas sem abandonar as distorções e a pegada forte. Era como se meu organismo estivesse sendo digitalizado, e ao mesmo tempo o som agressivo do rock arrancava os fios da rede que se formava. Uma briga intensa entre a inovação tecnológica e o velho som de qualidade. Os meus amigos gostam deste estilo. Iam, inclusive, num show desta banda no Rio e estavam empolgados.
- Incubus é muito bom. Inovou sem deixar de lado as raízes do rock and roll, observou um deles.
- Eu vou pirar neste show, garantiu a menina.
Pirado já estava eu, de tantos sentimentos de uma só vez. Quando o CD começou a tocar o som de Steve Vai, então, eu tive que dar um tempo. Ele é um guitarrista que imprime várias notas por segundo, virtuoso, lenda da guitarra. Tão pouco é possível entender as notas de tão rápidas. Meu estômago ia embrulhandoembrulhandoembrulhandoembrulhandoembrulahando... Desliguei o som e vi que estávamos chegando ao Rio. Veio um sinal de conforto, um silêncio que não incomoda. A intimidade e a confiança eram marcantes entre aqueles amigos e eu sempre achei valioso preservar isso. Mas logo pensei que podia perdê-los; todos um dia iriam trabalhar, e talvez mudar de cidade, estado, país. Agora, eram a tristeza e a felicidade que me confundiam; e o conforto fora embora. Como música, aquele silêncio me trazia sentimentos à flor da pele.

Felipe Izar

4 comentários:

Nina Salgado disse...

e eu dormindo naquele onibus.

Lucas disse...

Que legal, meu velho!
Gostei muito do texto. Isso me inspirou muito a escrever a coluna que me foi oferecida em um site de rock alternativo.
Sim, escreverei resenhas sobre CDs, dando minhas impressoes acerca de algumas bandas!!!
Legal, né?!
Se vc tiver tempo e estiver interessado em entrar na onda, me dá um toke ! as vezes tem espaço pra mais um!
Abraço!

Felipe Izar (Pips) disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nina Salgado disse...

eu quero ler o texto qd ele estiver pronto