O filme Tropa de Elite de José Padilha e Rodrigo Pimentel teve uma repercussão muito além do esperado. Tem razão se ser. O filme é bom, tem bons atores e retrata uma realidade no Brasil, como a do crime e do trafico de drogas, que merece reflexão. O problema é que ao invés de uma análise sobre a relevância do tema, as pessoas se divertem, acham que o capitão nascimento - protagonista do filme - é um herói e fazem com que o ótimo filme perca o efeito reflexivo. Mesmo com a crença de que o longa-metragem tenha sido uma jogada de marketing de Padilha e Pimentel, que através de atores globais deram um toque do “belo” a um assunto tão sério, é uma ignorância assistir ao filme e fazer apenas brincadeiras e piadas sobre ele. Não é possível que a hipocrisia do ser humano, corrupto, mentiroso; a falta de respeito com o outro; e a razão da violência como culpa de todas as camadas sociais seja motivo apenas de risadas.
As pessoas comentam que no filme a polícia especializada no Rio de Janeiro é incorruptível, e que só daquela forma é que o tráfico pode ser combatido. Pois eu penso que o longa mostra exatamente o contrário. Essa polícia age com uma violência exagerada e sem sentimento algum. É apenas caçar e matar. Não é possível que assim seja a melhor forma de combater a violência no Brasil. Além disso, nem o mais ingênuo dos cidadãos deve achar que essa polícia seja realmente incorruptível.
Mas vamos esquecer um pouco do respeito às pessoas e pensar na eficácia da polícia. No dia 22 de outubro, a antropóloga Alba Zaluar escreveu na Folha de São Paulo que o tráfico de drogas é uma grande empresa, e obtém seus lucros extorquindo os mais fracos – gerentes, vapores, soldados e olheiros. Estes trabalham para os chefes, ganham um salário insignificante e, quando presos, param de receber. A antropóloga diz: “Nada justifica, portanto, que policiais cacem e matem quem deveriam prender para investigar melhor os meandros dessa empresa tão lucrativa e tão violenta. Fora os danos à imagem da polícia, há prejuízos na informação acerca dos fornecedores de armas que, presos, dariam”. Ora, é claro que os ditos fracos, presos e sem nada a perder cederiam informações sobre os “chefões do tráfico”. Não tem porque, então, chegar matando.
Percebe-se que o longa de Padilha e Pimentel mostra uma ação um tanto questionável da polícia, e não a ação de heróis.
O filme também faz uma crítica muito dura em relação aos usuários de droga. Estudantes de direito, provavelmente de classe média-alta, que fumam maconha, cheiram cocaína, e ao mesmo tempo fazem passeatas pela paz. Padilha disse na revista Época: “Tem alguma coisa errada”! Tudo bem, é de se pensar sobre o assunto da legalização da droga, que em países como a Holanda esse método dá certo, pois acaba com o comércio dos traficantes. Mas o fato é que o filme mostra um lado pouco discutido, que deve nos chamar a atenção para pensarmos sobre como agimos, e não para contar piadas sobre isso.
O cronista Fernando de barros e Silva, também na Folha de São Paulo do dia 22, faz um comentário irônico em relação a essa crítica sobre os universitários do longa: “Os estudantes do filme são retratados como um bando de desmiolados, entorpecidos pela fumaça teórica que lhes ensinam na sala de aula”. Pois eu acredito que existam desmiolados mesmo. Principalmente porque esses estudantes, pelo que vejo, são os pioneiros na implantação das brincadeiras e da “modinha” das gírias advindas do filme. Além do mais, o longa, como tudo que o homem escreve, fotografa e filma, é um recorte da realidade, e, portanto, não é possível chegar à verdade absoluta. O filme de fato exagera, tem um toque de ilusão, mas mostra uma realidade dura de ser encarada pelo homem. Fausto neto diz em sua obra: “O mundo se dá a conhecer através da ilusão”.
Felipe Izar
terça-feira, 23 de outubro de 2007
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Um comentário:
Esse Pips, todo jornalisticoso
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