segunda-feira, 20 de agosto de 2007

O homem no confessionário

Tive a sensação de que era o segundo casamento que eu prestigiava. Sábado, meio dia, em uma igreja. Não me agradou. Tive que acordar mais cedo no fim de semana, eu estava com fome e o casório era na hora do almoço; e também achei que os casamentos modernos não eram mais realizados em igrejas. Mas não posso reclamar. Minha presença não era essencial, fui convidado apenas por educação da noiva, que fazia questão do comparecimento dos meus pais. Eu queria era sair um pouco com minha família, rever um ex-amigo e aproveitar a bebida e a comida da festa, que aconteceu logo em seguida à união dos noivos.
Mas vamos à cerimônia de casamento. As pessoas estavam em silêncio na igreja, apenas o padre falava. Ele proferia algo como de fidelidade eterna a companheira ou ao companheiro e a Deus, palavras que nos dias de hoje geram alguma incredulidade. O silêncio era muito mais em respeito aos noivos do que à igreja. A ideologia desta instituição anda um pouco desgastada no imaginário dos indivíduos, principalmente, como naquele casamento, com a "imagem" negativa que boa parte da classe média brasileira tem deste centro religioso.
A vontade de ir embora e o tédio das pessoas aumentavam cada vez mais. Principalmente dos jovens, desacostumados com este tipo de acontecimento. Eram aqueles momentos em que sempre evoco o clichê de que 20 minutos se transformam em duas horas. Ou como disse um amigo em uma letra de música: “um passatempo que faz o tempo parar”. Mas no caso dele o passatempo era uma mulher. Eu não estava com a mesma sorte. Torcia, pelo menos, para que algo inusitado acontecesse. Mas era sempre Silêncio, padre falando, Amém.
Subitamente o momento mágico. Um barulho moderno, contrastando com o ambiente bucólico da igreja. E todos estavam rindo, como se algo superasse o respeito que antes reinava. Eu ri sem saber por que e, ao mesmo tempo, procurava o motivo da alegria para rir de verdade. Logo achei. Era um homem mais velho, que correu como em uma disputa de um torneio de atletismo e encostou-se no confessionário da igreja. Ele sussurrava algo e estava nervoso, como se estivesse xingando o padre que estava dentro da “cabine” de confissões. Também tentava esconder de todos e não conseguia. Parecia que iria quebrar o confessionário para sumir das pessoas e encher o suposto padre de pancadas.
Mas o motivo de tanta reviravolta já estava mais que evidente. Naquele ambiente tranqüilo e de respeito todos ouviram o toque de um meio de comunicação que se popularizou no século XXI e sempre está em companhia das pessoas, o celular. Um aparelho que deixa o indivíduo 24 horas disponível e que, por isso, você pode conversar com ele a hora que quiser. Se ele estiver dormindo você pode acordá-lo. Se ele estiver no trabalho você pode atrapalhá-lo. Se ele estiver na igreja para um casamento você pode “alegrar a cerimônia”, fazer com que o indivíduo passe vergonha e nunca mais se esqueça de desligar o aparelho em um ambiente como aquele.
Seria bom se o desenvolvimento da tecnologia fosse ilimitado, pois facilita as tarefas do homem, mas com um limite que proporcione um mínimo de respeito ao ser humano.
Felipe Izar